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domingo, 1 de setembro de 2019

Sagen Ishizuka: A Potência Transformadora do Alimento (Parte sétima)


Sagen Ishizuka:
A Potência Transformadora do Alimento
(Parte sétima)
                                                                                                                                      
                                                                                                            Ronald Kotzsch



Com o sucesso de seu segundo livro, viu Ishizuka sua fama crescer. Era ele assediado por uma multidão desde a aurora. Os enfermos batiam à sua porta de madrugada e disputavam cartões numerados para serem atendidos. A certa altura, teve que limitar-se a cem consultas por dia. O humilde e despretensioso Ishizuka, que insistia em anotar suas prescrições em tiras de papel usado, tornou-se conhecido em todo o Japão. Ganhou o epíteto de “antidoutor”, pois era capaz de curar só com alimentos até mesmo os desenganados pela medicina moderna. Com efeito, ele se recusara a lançar mão de quaisquer medicamentos e técnicas cirúrgicas. Ishizuka recomendava uma dieta baseada em arroz integral, embora prescrevesse arroz parcialmente polido àqueles com problemas digestivos. Para determinada pessoa, podia indicar um alimento suplementar específico – nabo comprido japonês, bardana, tangerina, etc. –, objetivando restaurar seu equilíbrio mineral. Para certas doenças prescrevia certos alimentos. Para alguém com digestão precária, por exemplo, receitava feijão azuki, algas marinhas e brotos de bambu. Para alguém com transpiração excessiva, sugeria algas hijiki.

A fama de Ishizuka chegou a tal ponto que as cartas endereçadas ao “Dr. Daikon” ou ao “Dr. Missoshiru” chegavam a ele sem problemas. Entre seus pacientes encontravam-se ricos e poderosos, membros da aristocracia, militares e políticos; mas também pobres e pessoas comuns. Em 1908, um grupo decidiu formar uma organização para promover os ensinamentos de Ishizuka. No dia do Festival de Outono da Nova Colheita de Arroz daquele ano, eles fundaram a Shoku-Yōkai ou “A Sociedade da Cura pelo Alimento”, nomeando Isizuka conselheiro. Esta foi, efetivamente, a primeira organização macrobiótica da história. Um centro se estabeleceria em Tóquio; reuniões mensais se realizariam no local; e uma publicação mensal, chamada Shoku-YōShimbun, viria a lume. Em sua capa, um subtítulo em Inglês anunciaria: “Uma publicação dedicada à promoção da Nova Ciência Química do Cerealismo introduzida pelo Sr. Ishizuka Sagen.”

Ishizuka permaneceu bastante ocupado, escrevendo, ministrando palestras, viajando e dando consultas em Tóquio e em outros lugares. AShoku-Yōkai cresceu, e filiais surgiram em outras cidades, incluindo Osaka, Shizuoka e Sendai. Em 1910, entretanto, Ishizuka desenvolveu catarro estomacal, resultado, segundo Ohsawa, do excesso de trabalho. Mas ele manteve os compromissos, e no dia do Festival da Colheita, dois anos exatamente depois da fundação da Shoku-Yōkai, expirou. Milhares de pessoas acompanharam seu cortejo fúnebre em Tóquio.

A obra de Ishizuka, como médico, está baseada na importância do alimento para a saúde humana. Mas ele compreendeu o alimento como fator-chave envolvido em todos os aspectos da vida. Não somente as condições fisiológicas de alguém, mas a sua constituição física, seus traços de personalidade, seus padrões psicológicos e mesmo seu nível espiritual são determinados pelo inter-relacionamento de certos minerais e, portanto, pela dieta. Na verdade, o que Ishizuka propõe é uma teoria geral da evolução e do comportamento humanos baseada no alimento. Para ele, a dieta de um indivíduo desempenha um papel crucial em sua vida moral, social, política e religiosa, tanto quanto em sua fisiologia. Seu próprio sentimento de missão e seus planos para a Shoku-Yōkai foram muito além da cura das doenças individuais.

Em Chōjuron, por exemplo, Ishizuka observa que os habitantes das áreas costeiras tendem a ser mais baixos e robustos e a ter a face mais esférica. Tais tendências, afirma Ishizuka, devem-se à relativa abundância de sódio no solo, ar, água e, consequentemente, no alimento. Nas planícies continentais, longe do litoral, e no alto das montanhas, o potássio predomina no ambiente e, portanto, nos alimentos e nas pessoas. Os habitantes dessas regiões tendem a ser mais altos e delgados e a ter a face mais ovalada. Falta-lhes a força física das pessoas com Na dominante, embora possuam mais resistência e flexibilidade.

O equilíbrio Na/k determina diretamente muito mais do que o tipo físico. Num gráfico apresentado em Yōjōhō, Ishizuka lista as seguintes características como sendo também resultantes da proporção entre aqueles minerais: altura, peso, ritmo de desenvolvimento, ritmo de amadurecimento, tempo de vida, tipo de voz, tipo de inflexão ao falar, temperamento, memória, rapidez de julgamento, capacidade de resposta emocional, queda para negócios, capacidade de guardar segredos, moralidade, tranquilidade e força de espírito, e bom coração.

A descrição de Ishizuka dos tipos Na-dominante e k-dominante é bastante profunda e específica. Os primeiros tendem a ser fisicamente ativos, agressivos e barulhentos. São materialistas, mundanos e ambiciosos. Seu modo de pensar é dualista, veem os opostos homem e natureza, bom e mal, espírito e matéria como absolutamente separados e mutuamente excludentes. Um forte desequilíbrio em Na, causado por uma alimentação rica em proteína animal, resulta em agressividade, ganância, crueldade e tendência para menosprezar os outros.

Os tipos K-dominantes, isto é, pessoas que vivem sob uma total ou quase total dieta vegetariana, são mais tranquilos, sensíveis e introspectivos. Seu ponto de vista é mais espiritual do que materialista, e seu pensamento flagrantemente monista. Eles veem os opostos como parte de um todo harmonioso, e percebem as contradições e conflitos como aparentes, e não como reais. Enquanto o desejo sexual num indivíduo Na-dominante tende a ser esporádico, tempestuoso e efêmero, num indivíduo K-dominante ele costuma ser constante, delicado e duradouro. Enquanto uma dieta rica em sódio desenvolve sai (astúcia mundana), uma dieta rica em potássio alimenta chie (sabedoria espiritual).

De acordo com Ishizuka, até mesmo o desenvolvimento de níveis mais altos de espiritualidade é controlado pelo alimento. Todos os grandes sábios e santos, segundo ele, viveram sob um regime de grãos integrais e vegetais cozidos com sal. O efeito do alimento é tão poderoso e sutil que cada grão produz diferentes tipos de desenvolvimento espiritual. Os níveis mais altos de espiritualidade surgem para aqueles que adotam o arroz integral como alimento básico. Os santos que comem trigo ou uma mistura de grãos desenvolvem um tipo de espiritualidade mundana, menos pura, mas que lhes permite lidar com as questões do dia a dia.

Portanto, o ser integral do homem, sua vida e destino dependem da seleção e preparação do alimento diário. Se ele elege uma dieta em consonância com seu meio natural e bem proporcionada de sódio e potássio, experimentará uma vida longa e saudável. Ele desenvolverá uma mentalidade generosa e expansiva; será naturalmente educado, virtuoso e capaz de se alegrar com a alegria dos outros. Terá boa memória e espírito elevado. Por outro lado, se adotar uma dieta que viola a ordem natural, tornar-se-á animalesco no corpo, na mente e no espírito. Pode o homem fazer-se a si mesmo um “fantasma faminto” (gaki), escravo de seus desejos, ou um “bodhisattva” (bosatsu), a encarnação do amor altruísta e da compaixão. O segredo reside no seu alimento diário. Shoku-Yō consiste, portanto, numa disciplina de vida crucial tanto para a mente e o espírito, quanto para o corpo. Destina-se a curar e aperfeiçoar o indivíduo como um todo, e não meramente eliminar os sintomas das doenças.

domingo, 13 de janeiro de 2019

Sagen Ishizuka: A Potência Transformadora do Alimento (Parte Quarta)



Sagen Ishizuka:

                    A Potência Transformadora do Alimento 
                                             (Parte Quarta)


                                                                                                     Ronald E. Kotzsch

                                                                                                                                       
Ishizuka também sofreu forte influência de Nanboku Mizuno. Nanboku tornou-se bastante conhecido no final dos anos 1700. Foi ele um pioneiro da fisiognomonia, estudo das relações entre as características físicas e a personalidade dos indivíduos. Para aprofundar-se nesta arte, Nanboku passou anos trabalhando como barbeiro, depois como assistente em instalações públicas de banho, e finalmente como ajudante num crematório. Em tais empregos, teve ele a oportunidade de observar uma legião de indivíduos e correlacionar-lhes o padrão constitucional e os traços fisionômicos com o destino e a personalidade. Em 1788, os primeiros cinco volumes de seu “O Método Nanboku de Fisiognomonia” viriam a lume. Em 1805, os cinco últimos seriam publicados.

A arte de Nanboku consistia fundamentalmente em revelar o caráter de uma pessoa, assim como seu passado e futuro, através da observação minuciosa de sua aparência física. Seus livros trazem longas seções sobre o significado de vários tipos de nariz, olhos, orelhas, boca, cabeça e sinais incomuns. Por exemplo, narinas extremamente alargadas indicam uma pessoa muito enérgica, talvez agressiva; já uma pinta na bochecha esquerda denuncia um tagarela. Nanboku afirmava que, enquanto nossa estrutura fisionômica é em grande parte herdada, nossa aparência é radicalmente influenciada por nossa alimentação e estilo de vida. Este ponto de vista bem como a ideia de que a fisiologia está intimamente relacionada à psicologia, ao comportamento e mesmo à espiritualidade influenciaram sobremaneira a Ishizuka.

Provavelmente Ishizuka deixou-se inspirar também pela obra de Ekken Kaibara, filósofo, escritor e divulgador do pensamento e da moral confucianos que viveu entre 1630 e 1714. Kaibara escreveu sobre uma ampla variedade de temas, incluindo filosofia, educação, ética e história natural. Sua obra “Regras para Nutrir a Vida” consiste num manual prático de higiene e cuidados para com a saúde. Amplamente lida no Período Edo, converteu-se num clássico da medicina e sabedoria populares. Embora Ishizuka não a mencione em seus próprios escritos – e tampouco o faça Ohsawa em sua biografia de Ishizuka–, muito provavelmente a obra teve grande influência sobre o pensamento do precursor da macrobiótica. É inconcebível que, na qualidade de sério estudante da medicina tradicional, não tenha Ishizuka compulsado desde cedo o famoso volume.

Os ensinamentos médicos e práticos de Kaibara baseiam-se largamente nos antigos textos chineses, incluindo o Tratado de Medicina Interna do Imperador Amarelo. Uma de suas ideias centrais insiste em que, dos diversos fatores que afetam nossa saúde, o alimento e a bebida são os mais importantes. Para defendê-la, cita um antigo ditado: “Se a calamidade sai pela boca, a doença por ela entra.” Afirma que “de tudo o que comemos e bebemos, o mais importante é o arroz.” Podemos suplementá-lo com carne e vegetais; “a carne, ingerida raramente, não traz consequências funestas.” Citando ainda os antigos, escreve: “Os cereais devem prevalecer sobre a carne”, “a carne dos quadrúpedes revela-se prejudicial aos japoneses, dada a debilidade de seus intestinos e estômago.”

A essência da terapêutica de Kaibara reside no autocontrole e na moderação, seja no beber e no comer, seja na atividade sexual, no dormir e na conversação. Dever-se-ia comer apenas quando a sensação de fome estivesse claramente presente, e só o correspondente a 80% da capacidade do estômago. Não se deveria dormir logo após as refeições, mas sim executar alguma atividade leve, sendo a caminhada uma excelente opção. Seria aconselhável ainda diminuir deliberadamente a frequência da atividade sexual com o passar dos anos. Recomendar-se-ia também não dormir muito nem deixar-se levar pela tagarelice. O segredo da saúde e da longevidade está, pois, em controlar esses desejos e evitar as sete emoções extremas: alegria desmesurada, raiva, preocupação, tristeza, medo, melancolia e espanto. Procedendo assim, seria o homem capaz de conservar a vitalidade e viver uma longa vida, livre de doenças e debilidades.

Segundo Kaibara, a vida do homem pode e deveria ser longa e feliz. Poderia o homem chegar, segundo Kaibara, tranquilamente aos cem anos. Se alguém pratica o Yōjōhō (“método para nutrir a vida”), isso pode muito bem ser concretizado. E durante esse tempo, o homem deveria ser feliz e saudável, capaz de experimentar prazer infinito mesmo nas coisas simples do dia a dia, como ler poesia, contemplar a natureza e a mudança das estações, comer vegetais cultivados em seu próprio quintal, beber saquê (moderadamente, é claro!). “Afinal de contas, deleite e prazer são coisas a que o Céu e a Terra destinaram os seres viventes, e de que os homens já nasceram dotados.” Kaibara é um defensor da moderação, não do ascetismo. Para ele, uma vida curta ou enferma constitui uma calamidade que o homem atrai para si mesmo mediante a imprudência e a autoindulgência. É uma espécie de suicídio.

domingo, 30 de dezembro de 2018

Tornar-se humilde e puro


“É preciso esquentar o ferro várias vezes e martelá-lo muito tempo, antes que ele possa tornar-se aço temperado. E só então é possível dar-lhe a forma que se deseja e dele fazer uma espada cortante. Da mesma forma, um homem deve passar várias vezes pela fornalha das tribulações, deve ser batido pelas perseguições do mundo antes de tornar-se humilde, puro e capaz de ascender à presença de Deus”.

Ramakrishna

sábado, 8 de dezembro de 2018

Sagen Ishizuka: A Potência Transformadora do Alimento (Parte Terceira)



Sagen Ishizuka:

A Potência Transformadora do Alimento
(Parte Terceira)
                                                                                                                                  Ronald E. Kotzschmeuip.co


Sagen Ishizuka nasceu justamente às vésperas de entrar o Japão nesse período de reviravoltas. Sua família, pertencente à classe samurai, habitava uma remota região defronte ao mar do Japão. Sua educação formal foi concluída quando contava ele 18 anos. Mas Ishizuka não abandonou os estudos: neles prosseguiu por conta própria, sendo particularmente atraído por línguas estrangeiras e ciência ocidental. De acordo com a biografia escrita por Ohsawa, Ishizuka dominava o francês, o alemão, o holandês e o inglês, o que lhe permitiu aprofundar-se nos estudos científicos. Ele copiou à mão todo um volume sobre astronomia publicado em holandês.

Predestinado à medicina, Ishizuka trabalhou num hospital em Fukui, sua terra natal, onde entrou em contato como os métodos terapêuticos tradicionais. Exatamente quando a medicina ocidental começou a introduzir-se no país, transferiu-se ele para Tóquio, trabalhando e estudando num hospital da região. Com o tempo, graças a continuados estudos de ciência e medicina ocidental, obteve o título de doutor. Aos 28 anos tornou-se médico do exército japonês.

Desde a infância Ishizuka sofria de enfermidade renal crônica, a qual se manifestava como inflamação cutânea grave. No início de sua carreira militar, a doença intensificou-se e ameaçou incapacitá-lo para a vida profissional. Como não conseguia alívio com a medicina que ele próprio praticava, a medicina alopática, voltou-se então para a tradição oriental. O Tratado de Medicina Interna do Imperador Amarelo impressionou-o bastante. O livro estimulou-o a seguir uma linha de estudos e tratamentos totalmente conflitantes com as novidades da época.

Escrito provavelmente no ano 500 a.C., o Tratado de Medicina Interna do Imperador Amarelo consiste numa compilação da sabedoria médica da antiga China. Trata-se de um manual sobre anatomia humana, tipos e causas de doenças, métodos de diagnose e espécies de tratamentos. Sua exposição baseia-se na Teoria dos Cinco Elementos ou Energias, segundo a qual há cinco transformações da energia vital ou Ch’i. Os Cinco Elementos ou Energias correspondem à Terra, Água, Madeira , Metal e Fogo. Órgãos, doenças, sintomas e tratamentos (na verdade, todos os fenômenos) podem ser classificados de acordo com essas cinco “fases”, todas dinamicamente relacionadas entre si. A maior parte da obra trata da clínica e da técnica, embora se ocupe também dos princípios básicos da saúde e doenças humanas.

O Tratado, por exemplo, ensina que há uma relação fundamental entre alimento, saúde e doença. De acordo com a Teoria das Cinco Energias, há cinco sabores – doce, ácido, amargo, salgado e picante –, e cada um deles está em correspondência com determinado órgão do corpo humano. Ingerir exageradamente um alimento de certo sabor enfraquecerá o órgão ou função que lhe é correspondente. A alimentação, portanto, pode ser a principal causa das doenças.

O livro também afirma que o alimento constitui o meio fundamental para tratar as enfermidades. No texto pode-se ler que na “época medieval” os sábios tratavam as doenças primeiramente pela dieta, em geral prescrevendo um regime de papa de arroz por dez dias. Caso este tratamento não eliminasse o problema, recorria-se a raízes e plantas medicinais para harmonizar as energias. Acupuntura e moxabustão eram empregadas somente como último recurso. Se as emoções e a força de vontade do paciente se encontram em equilíbrio, diz o Tratado, obtém-se a cura simplesmente com cereais. Os grãos possuem um poder especial como alimento humano. Água e grãos constituem a raiz da vida, e “a morte sobrevém apenas quando a água e os grãos escasseiam.” O arroz, em particular, é mencionado como alimento vital e harmonizante. Métodos de prepará-lo, e até mesmo o combustível ideal para cozinhá-lo (palha de arroz), são levados em conta.

A essência do Tratado consiste no entendimento de que, por natureza, o homem é saudável, sendo a doença uma anomalia. Para manter ou recuperar a saúde, é necessário apenas viver em harmonia com o meio ambiente. O “autêntico sábio” vive de acordo com as leis do Yin e Yang, as quais governam todos os fenômenos. Ele bebe e come moderadamente, e regula sua vida em conformidade com os ciclos do sol, da lua e das quatro estações. Desfruta, por conseguinte, uma vida longa e feliz. Está mais interessado em prevenir as doenças do que em curá-las.

domingo, 30 de setembro de 2018

Sagen Ishizuka: A Potência Transformadora do Alimento (Parte Primeira)


Sagen Ishizuka:
A Potência Transformadora do Alimento
(Parte Primeira)
                                                                                                                                     Ronald E. Kotzsch




É George Ohsawa conhecido geralmente como o fundador da macrobiótica. Embora tenha transmitido ao movimento sua marca pessoal, não foi ele, porém, seu criador. O próprio Ohsawa cita, com frequência, o médico japonês Sagen Ishizuka como inspirador e mestre. Ishizuka, com efeito, iniciou o movimento que mais tarde se chamaria “macrobiótica”. Seus ensinamentos constituem o alicerce sobre o qual Ohsawa e outros mais ergueram a própria obra.

Nascido em 1850, no ocaso do Período Edo (1600-1868), Sagen Ishizuka viveu a fase adulta durante as primeiras décadas do Japão moderno. Nessa época, passou o Japão por céleres e radicais mudanças, substituindo vários elementos de sua cultura tradicional por empréstimos do Ocidente. Ishizuka, percebendo que no campo da alimentação e medicina muitos dos conhecimentos antigos estavam sendo perdidos, resgatou-os e apresentou-os com roupagem moderna e científica.

Do século XVII à primeira metade do século XIX, o Japão isolou-se progressivamente do resto do mundo. A ninguém era permitido sair do país ou a ele retornar, caso houvesse conseguido deixá-lo. Estrangeiros que porventura se encontrassem em solo nipônico corriam risco de vida; e mesmo náufragos na costa do país não eram tolerados. Somente um punhado de comerciantes holandeses exercia sem maiores problemas suas atividades econômicas numa minúscula ilha no porto de Nagasaki.

Para a maioria da população, o sonho de estabilidade e paz internas se havia concretizado. Um forte governo central sob o comando de um líder militar, o shōgun, mantinha o controle quase absoluto de um sistema feudal complexo. A população dividia-se em quatro classes sociais fixas: samurais, agricultores, artesãos e comerciantes – cada qual com seus direitos e deveres específicos. Distúrbios políticos ou sociais, se havia, não alcançavam o menor significado. A economia crescia, embora muito lentamente e dentro dos limites de uma sociedade agrícola e feudal. Vários centros urbanos, incluindo Edo (hoje Tóquio) e Osaka, desenvolveram-se, e neles uma rica cultura artística emergiu. Literatura, pintura, teatro e artesanato atingiram níveis de excelência. A cultura como um todo caracterizava-se por um refinamento estético talvez nunca alcançado na história da humanidade. Da perspectiva do século XXI, o Japão do Período Edo ou Tokugawa se assemelha a um exótico paraíso adornado de âmbar.

Em pleno século XIX era o Japão, portanto, comparado ao Ocidente, um país ainda medieval, intocado pela Revolução Industrial e Científica. A alimentação e a medicina refletiam esse ambiente. A dieta havia mudado muito pouco durante os séculos. O arroz representava a matéria-prima mais importante. Desempenhava ele um papel tão central na vida da nação, que constituía a base do intercâmbio econômico. A riqueza do senhor feudal era mensurada pela quantidade de arroz produzido anualmente por suas terras. Considerava-se o arroz uma dádiva concedida aos ancestrais sobre-humanos da nação diretamente pela deusa do sol. Um provérbio muito comum à época ensinava: “O arroz é Buda.” Enquanto o grão parcialmente polido alimentava os ricos, o grão integral saciava o comum dos homens. Os pobres misturavam o arroz a outros cereais, como cevada e trigo, ou reservavam-no para as férias ou emergências. Um ditado muito popular entre os camponeses – “Chegou mesmo a dar-lhe arroz” – indicava que a doença que atingira um pobre coitado era tão grave, que o autorizava a alimentar-se de arroz. Dizia-se go-han, “honorável arroz”, para referir-se a toda espécie de refeição.

Outro produto muito apreciado era a soja, usada sob a forma de pasta fermentada (misso), molho fermentado (shoyu) e coágulo (tofu). Ingeria-se uma grande variedade de vegetais, e com o nabo comprido japonês (daikon) e a película de arroz (nuka) elaborava-se uma deliciosa conserva chamada takuan. Peixes e vegetais do mar eram também muito utilizados. Frutas, porém, não constavam como parte importante da dieta, sendo a tangerina e o caqui as únicas regularmente cultivadas.

Pouca carne era consumida, dados os preceitos religiosos que a proibiam tanto por parte do Xintoísmo autóctone quanto do Budismo importado por volta do ano 400 d.C. Frango e aves selvagens representavam a maior parte do que se consumia em termos de carne. A criação de animais de grande porte para abate era virtualmente desconhecida. O gado criado destinava-se basicamente à tração animal, pois a ideia de beber leite ou usá-lo para produzir manteiga ou queijo era quase inconcebível. Em 1859, quando o embaixador americano Townsend Harris reclamou uma vaca para beber-lhe o leite, o diplomata japonês escandalizou-se. Ainda no período moderno, comportamentos semelhantes persistiam em determinados rincões do país. Em sua autobiografia intitulada “A Filha do Samurai”, Etsuko Sugimoto narra a própria infância no interior do Japão não muito depois da chegada de Harris. Acreditava-se que o consumo de leite e seus derivados converteria o homem em quadrúpede. Além disso, o uso da carne bovina incluía-se entre os atos abomináveis. Quando o avô de Etsuko, por razões médicas, se viu obrigado a ingerir carne, as portas do santuário da família foram fechadas a fim de que os espíritos dos ancestrais não se sentissem insultados.

A medicina tradicional baseava-se em ideias e práticas que remontavam à aurora da civilização chinesa. Segundo essa tradição, a fisiologia e a saúde humanas devem ser entendidas a partir da noção de Ki (Ch’i, em chinês), a energia vital que permeia todo o universo e transmite vida ao corpo. O ki flui ao longo do corpo por canais conhecidos como meridianos. Há dois meridianos principais, um na região frontal e outro na região dorsal do corpo, além de seis nos braços e seis nas pernas. Cada um desses doze meridianos se conecta a um órgão ou função do corpo, e o desequilíbrio em um órgão manifesta-se como deficiência, estagnação ou excesso de Ki no meridiano que lhe é correspondente. Era por meio do reequilíbrio, estimulando ou sedando os canais energéticos, que as várias artes médicas tratavam as doenças. A acupuntura lançava mão de agulhas de ouro ou prata inseridas em pontos estratégicos ao longo dos meridianos com o propósito de regular o Ki. A moxabustão buscava estimular esses pontos queimando sobre os mesmos pequenas quantidades da erva artemísia. No shiatsu, a estimulação e o reequilíbrio realizavam-se por intermédio da pressão digital. Ervas também eram usadas, agindo internamente sobre os órgãos. O objetivo dessas diferentes técnicas era o mesmo: estabelecer um livre e harmonioso fluxo de Ki através de todo o organismo, a fim de que o “Ki primordial”, genki (termo sino-japonês para “saúde”) fosse reconquistado.

Outro braço dessa tradição médica era a regulação pela dieta. Embora a maioria dos curadores a usassem como medida suplementar a suas técnicas de resultado mais imediato, algum deles a consideravam o tratamento por excelência. No filme “O Barba Ruiva” (Akahige), o diretor Akira Kurosawa se detém sobre a carreira de um médico do Período Tokugawa. Ainda que devotado principalmente aos cuidados dos pobres, Barba Ruiva responde ao chamado de um rico senhor feudal. O nobre– balofo e inchado– mal consegue manter-se de pé. O médico encara-o friamente, cobra-lhe uma quantia exorbitante (para manter sua clínica) e aconselha-o a não comer senão papa de arroz integral por um período indefinido. A expressão de incredulidade na face gorducha do homem comprova que a dietoterapia era um elemento secundário, e não principal, na medicina do Japão pré-moderno.

sábado, 4 de agosto de 2018

Levando a Gratidão à Mesa


Levando a Gratidão à Mesa
Lino Stanchich 












A
ntes de comer, deveríamos dar graças. Faz isso realmente diferença? Ora, como você se sente quando um amigo expressa amor e gratidão por você? Pois é exatamente assim que os alimentos reagem.

O alimento está vivo. É uma bênção do solo. Não é algo inerte, imutável, morto. Muito me entristece ver um alimento sendo desperdiçado ou desvalorizado. É como se um amigo do peito estivesse sendo rejeitado ou criticado sem razão.  A abundância tem seu lado negativo: fez que as pessoas perdessem o sentimento de reverência pelo alimento. A prática do jejum cria uma profunda consciência da bênção que o alimento é.

Fale com o alimento como se ele estivesse vivo, pois efetivamente ele está vivo! Fale em voz baixa ou em pensamento. Diga a sua refeição: “Por favor, venha para dentro do meu corpo. Cure-me, deixe-me com mais energia, deixe-me mais eufórico ou mais tranquilo; ajude-me a encontrar meu eixo.” Direcione a energia do alimento a fim de que ela possa suprir suas necessidades individuais.

Não tenha dúvida: o alimento é capaz de reconhecer sua gratidão. E reagirá a ela! Pense nos diferentes alimentos dispostos no prato como pequenos gênios ou espíritos que entrarão em seu corpo e farão maravilhas por você. Conscientize-se de quão afortunado você é por ter acesso aos alimentos. Expresse sua gratidão à Natureza, a Deus, ao Universo, a todas as pessoas que contribuíram para que o alimento chegasse até você, e especialmente ao próprio alimento.

Somente após ter dado graças é que você deveria começar a comer.

Sugestão de prece para antes das refeições

Obrigado, Universo, por dar-me a vida, por inspirar-me e orientar-me. Obrigado por meus pais, por meu cônjuge e amigos, com os quais compartilho a vida. Agradeço-lhe profundamente pelo alimento que estou prestes a ingerir. Agradeço a todos os que contribuíram para que ele chegasse à minha mesa, desde o camponês que fê-lo crescer até o responsável por transportá-lo. Agradeço especialmente ao cozinheiro que o preparou e há pouco mo serviu. Que este alimento entre no meu corpo e me torne mais saudável e feliz. Que ele, purificando meu corpo, me faça um ser humano melhor, mais consciente e capaz de tornar o mundo mais saudável, pacífico e feliz. Amém.