domingo, 17 de junho de 2018

Técnicas avançadas de mastigação


Técnicas avançadas de mastigação
Lino Stanchich


AO COMEÇAR A PRATICAR a mastigação consciente, você se confrontará com seus próprios hábitos. A tendência é engolir depois da vigésima mastigada. Quando isso acontecer, resista e pare conscientemente de mastigar por alguns segundos; então empurre o alimento para frente com a língua e recomece o processo. Ao chegar à marca de 50 a 80 mastigadas, você provavelmente terá produzido muita saliva, especialmente se abocanhou grande porção de alimento. Engula, mas da próxima vez leve à boca uma porção menor. Depois de mastigar 150 vezes, a maioria das pessoas percebe que pode continuar indefinidamente, porque os reflexos se tornam automáticos.

Para obter melhores resultados, aplique à mastigação um movimento espirálico. No começo isso pode parecer estranho, já que a maioria das pessoas mastiga imprimindo à mandíbula um movimento meramente ascendente e descendente. Você pode treinar a mastigação em espiral conduzindo o alimento com a língua ora para o lado direito ora para o lado esquerdo da boca.

Uma técnica adicional que tenho julgado poderosa consiste em manter os olhos semicerrados ou cerrados enquanto repito alguma frase mentalmente. Eu visualizo o que gostaria que se concretizasse em minha vida. Esta técnica registra a frase no meu inconsciente, contribuindo para que meus sonhos e desejos se tornem realidade.

Às vezes tenho a sensação de estar mastigando com o corpo inteiro1, e sinto um calor benéfico se propagar por todos os órgãos e sistemas. É então que experimento o instante supremo do ato de comer. Isso costuma acontecer quando alcanço a marca de 200 mastigadas. Tal experiência é mais bem descrita como uma extraordinária sensação de bem-estar e júbilo acompanhada por uma espécie de vibração que ganha o corpo todo e o deixa inebriado. Depois de experimentar tal sensação, você pode muito bem tornar-se um “viciado” na mastigação consciente simplesmente por causa do revigoramento que ela proporciona. Àquela sensação chamo “Potência Entusiástica do Corpo”.

A Potência Entusiástica do Corpo se manifesta também em outras situações. Os amantes, por exemplo, são tomados por esta energia quando estão próximos um do outro. Outros se deixam invadir pelo mesmo sentimento quando estão cantando, dançando, atuando. E você experimentará a mesma sensação em breve, ao praticar a mastigação consciente.

Depois de uma refeição, deveríamos sentir-nos energizados, alegres, enlevados, como se flutuássemos no ar, e agradecidos por tudo o que nos foi dado, especialmente o alimento que acabamos de desfrutar. Estou convencido de que mastigar aumenta a presença da endorfina no cérebro e no corpo. O otimismo passa a nos governar. É como se estivéssemos apaixonados ou profundamente inspirados. Mastigar é um exercício que nos incute um respeito profundo por nosso corpo e por toda a Natureza.

Que velocidade imprimir à mastigação?



Se estou comendo sozinho, mastigo muito bem. Posso comer ainda melhor na companhia de bons mastigadores. Se, por outro lado, como ao lado de pessoas que não querem ou não podem mastigar muito, isso me afeta consideravelmente. Não há como negar que somos influenciados tanto pelo ambiente quanto pelos indivíduos que nos cercam. Com o objetivo de extrair o máximo do seu alimento, escolha um lugar que inspire paz e companhias que o estimulem a mastigar.

Durante toda a minha vida, minhas glândulas têm estado hiperativas. Se você comer em minha companhia, perceberá que, embora eu mastigue mais do que a maioria das pessoas, frequentemente sou o primeiro a terminar. Tal aparente contradição deve-se ao ritmo acelerado com que mastigo meu alimento2. Tenho consciência disso e tento reduzir a velocidade, pois, quanto mais rápido mastigamos, mais hiperativos nos tornamos. A boa notícia é que podemos mudar nossos padrões energéticos mudando a velocidade de nossa mastigação.

Se você é moroso ou se sente prostrado, e se deseja revitalizar seu metabolismo, acelere conscientemente seu ritmo de mastigação. Caso queira tornar-se mais sereno ou desacelerar seu metabolismo, reduza propositadamente a velocidade de sua mastigação. Você pode compor o ambiente com música de fundo e iluminação. Luzes brilhantes e música animada tendem a aumentar a velocidade da mastigação, ao passo que luzes brandas e música suave tendem a criar um ritmo mais tranquilo de mastigação.

Lembre-se: a velocidade que você imprime à mastigação afeta seu corpo inteiro. Mastigue com consciência. Defina o padrão de sua mastigação de acordo com suas necessidades, tendo sempre em mente o quão importante é mastigar bem seu alimento. Reconheço que a disciplina de mastigar exige grande paciência. Uma vez, porém, comprovados seus miraculosos resultados, convencidos ficamos de que vale o esforço.

Notas:
1. Cumpre referir aqui um inestimável ensinamento de Tomio Kikuchi: “Não são apenas os dentes que mastigam: é o corpo inteiro que o faz.” Para que os alimentos sejam assimilados completamente, é mister deixar de lado o sedentarismo e movimentar o corpo diariamente. Portanto, essa sensação a que o autor faz menção (“de estar mastigando com o corpo inteiro”) só encontra paralelo no mundo real se o indivíduo incorporar à sua rotina diária uma atividade física que proporcione a combustão completa dos alimentos.

2. Ainda segundo Tomio Kikuchi, a mastigação consciente deve considerar a seguinte relação entre o volume de cada bocado e a velocidade com que é mastigado: o volume ideal corresponde a 9g de arroz integral cozido (o que equivale, mais ou menos, a 140 grãos), e a velocidade ideal corresponde a 140 movimentos por minuto. Este é o padrão, do qual é prudente não se afastar muito se o objetivo é valer-se dos benefícios da mastigação. O aspirante a mastigador ideal pode no início treinar com a ajuda de um relógio. Mas logo prescindirá do instrumento, pois o bom hábito se interiorizará como uma segunda natureza.



terça-feira, 8 de maio de 2018

VOCÊ É COMO VOCÊ COME


VOCÊ É COMO VOCÊ COME
“Ninguém pode mastigar por nós: nisso consiste toda a nossa liberdade.”
Michio Kushi
“O alimento pode ser tanto o céu quanto o inferno.”
Swami Muktananda




C
omer é o nosso impulso mais básico, é a expressão maior de nosso instinto de sobrevivência. Talvez por ser tão simples, o ato de comer é completamente menosprezado como um dos alicerces de nossa saúde. Sim, há outros alicerces; mas, se você questiona a importância do alimento, tente jejuar por alguns dias ou observe a reação de uma criança faminta. Como acontece com todas as funções humanas básicas, comer pode se manifestar quer como um prazer descontrolado, quer como uma experiência espiritual. O modo como comemos pode simplesmente resultar em indigestão e doença, como também em cura e transformação.

Em muitas tradições e culturas, o comer é considerado um ato extremamente importante e até mesmo sagrado. Um meu amigo do Líbano afiançou-me que naquelas terras um simples camponês tem assegurado o direito de não interromper uma refeição mesmo se um rei adentrar a sua casa. A antiga lei judaica estabelecia que, se alguém tenciona ingerir um pedaço de alimento maior do que um ovo, esse alguém deve primeiro sentar-se e dar graças ao Senhor. Comer manifestando reverência constitui uma recomendação de várias práticas espirituais.

Hoje, porém, abandonamos negligentemente nossas refeições para falar ao telefone ou para atender qualquer pessoa, tornando-nos vulneráveis aos milhões de influências caóticas da vida moderna. Enquanto comemos, agitamo-nos, falamos, lemos, assistimos a programas de tevê... e depois tomamos um digestivo. De acordo com o Consumer Spending Report, os norte-americanos gastam montanhas de dinheiro por ano com digestivos.

Michael Rossoff, acupunturista e orientador macrobiótico, afirma em seu artigo intitulado Finding Peace of Mind in Troubles Times (Encontrando a Paz da Mente em Tempos Conturbados):

A experiência de comer na qual aromas, cores, texturas e gostos se reúnem para satisfazer nossos sentidos e nosso estômago –, a experiência de comer deixou de fazer parte da vida de muitas pessoas. Se você assiste à televisão, lê uma revista ou dirige um veículo enquanto come, você inevitavelmente não consegue assimilar a refeição em sua totalidade. Não me surpreendo com o fato de as pessoas comerem demais e estarem sempre famintas.

Movemo-nos, em detrimento de nossa saúde, como ratos num labirinto. Se são os alimentos um dos pilares de nosso bem-estar, os hábitos estressantes que acompanham nossas refeições estão levando nosso organismo à ruína. A maioria de nós come demasiadamente, mas encontra-se subnutrida.  Para muitos o alimento é visto como entretenimento, e não como fonte de vida e saúde. Palhaços sorridentes vendem caixas coloridas e brilhantes de comida com alto teor de açúcar e gordura. Personagens de desenhos animados, estrelas de cinema e atletas tentam convencer a população a consumir junk food.

Entretanto, um grupo crescente de pessoas está mudando seus hábitos alimentares. Desafortunadamente, nem todos alcançam o resultado esperado. E eles não sabem por quê. Na maioria dos casos, o motivo reside em que eles se preocupam somente com o que comer, e esquecem, ou nunca aprenderam, como comer. Minha experiência diz que são pouquíssimos os que sabem como extrair todos os poderes do alimento. Os efeitos da mais saudável refeição podem ser minimizados ou mesmo nulificados por um comportamento impróprio no momento de desfrutá-la.

É preciso aprender a como pôr nossa energia em circulação, a fim de que possamos receber do universo as forças benéficas, restauradoras e curativas e expulsar ou afastar aquelas prejudiciais, tóxicas e funestas. Se nada pode nos prejudicar mais do que o alimento, certo é também que nada pode nos curar mais do que ele. Comer é um ato tão singelo que dificilmente o encaramos como uma ferramenta inigualável de transformação e cura.

Cada um escolhe o que quer de sua vida. Podemos obter o máximo de benefícios dos alimentos que escolhemos comer. A atitude respeitosa à mesa, a respiração, o relaxamento, a contemplação, os exercícios de direcionamento da energia, tudo isso nos proporcionará um melhor aproveitamento das virtudes transformadoras que eles contêm. E assim nossos objetivos serão mais rapidamente alcançados.

Lino Stanchich