Desapego, o fundamento da cura
Henry Miller
No
nosso mundo, os cegos guiam os cegos e os doentes vão aos doentes para se
curar. Nós estamos fazendo constantes progressos, mas são progressos que
conduzem à mesa de operação, aos albergues, aos manicômios, às trincheiras. Não
temos curandeiros – temos só açougueiros cujo conhecimento
de anatomia lhes dá direito a um diploma que, por sua vez, lhes dá direito a
amputar ou cortar fora as nossas doenças, para que possamos sobreviver como
aleijões até a hora de ir para o matadouro. Anunciamos a cura disso e daquilo,
mas jamais mencionamos as novas
doenças que criamos en route. O culto
médico funciona mais ou menos como o ministério da Guerra – os triunfos
anunciados são camuflagem para esconder a morte e o desastre. Os médicos, como
as autoridades militares, estão indefesos; lutam uma guerra perdida desde o
começo.
O homem só precisa de paz para viver. Derrotar nosso
vizinho traz tanta paz quanto a cura do câncer traz saúde. O homem não começa a
viver por triunfar sobre seu inimigo, como não adquire saúde através de
incontáveis curas. A alegria de viver vem através da paz, que não é estática,
mas dinâmica. Nenhum homem pode dizer que sabe o que é a alegria antes de ter
experimentado a paz. E sem alegria não
há vida, mesmo que você tenha uma dúzia de carros, seis mordomos, um castelo,
uma capela privada e um abrigo antiaéreo.
Nossas doenças são nossas ligações, sejam elas hábitos,
ideologias, ideais, princípios, posses, fobias, medos, cultos, religiões – o
que vocês quiserem. Um bom salário pode ser uma doença igual a um mau salário;
o lazer pode ser uma doença tão grave quanto o trabalho. Ao que quer que a
gente se apegue, mesmo esperança ou fé, pode ser a doença que vai nos liquidar.
A rendição tem que ser absoluta: se você se agarrar à mínima
migalha, estará nutrindo o germe que vai te devorar. Quanto a agarrar-se a
Deus, ele nos abandonou há tempos, exatamente para que descobríssemos a alegria
de alcançar o Bem através dos nossos próprios esforços. Todo esse barulho que
se faz por aí, toda essa súplica insistente pela paz, que vai crescer à medida
que a dor e a miséria crescerem, não levará a nada. Onde encontrar a paz? Será que as pessoas
imaginam que a paz é algo que pode ser estocado, como milho ou trigo? É algo
que pode ser seguro e devorado, como uma carcaça entre lobos famintos? Ouço as
pessoas falarem de paz, e seus semblantes estão carregados de raiva, ou ódio,
ou desprezo, ou orgulho e arrogância.
Há pessoas que querem lutar para obter a paz – são as mais
enganadas de todas. Não haverá paz enquanto o assassinato não for erradicado do
coração e da mente. Tudo aquilo pelo que o homem lutou terá que ser posto de
lado antes que possa começar a viver como homem. Até agora não passou de uma
besta sanguinária, e mesmo suas divindades não prestam. Tornou-se o mestre de
muitos mundos, e no seu próprio mundo é um escravo.
O que comanda o mundo é o coração, não o cérebro. Em todos
os campos, nossas pesquisas trazem apenas morte. Voltamos as costas ao único
campo onde reina a liberdade. Na quietude, na grande paz que se abateu sobre
mim, ouvi bater o coração do mundo. Sei
qual é a cura: é desistir, renunciar, se render, para que os nossos pequenos
corações batam em uníssono com o grande coração do mundo.
Por favor, gostaria de saber a fonte deste texto. Muito bom. Obrigado por compartilhar.
ResponderExcluiralexandra trifler