Doença Celíaca e suas relações com o Glifosato
o
final de 2013 a revista científica Interdisciplinary Toxicology (do Instituto de Farmacologia
Experimental da Academia Eslovaca de Ciências) publicou um artigo que coloca em questão a
verdadeira origem da chamada doença celíaca – uma doença autoimune, cujos
efeitos são precipitados pelo consumo de alimentos contendo glúten. O glúten é
uma proteína encontrada em cereais como trigo, cevada, centeio e aveia, e os
portadores da doença celíaca devem suprimir da dieta todos os alimentos
contendo, sobretudo, trigo e seus derivados (por exemplo, massas em geral).
Segundo
os autores do artigo, intitulado “Glifosato, caminhos para doenças modernas II: doença celíaca e
intolerância ao glúten”
(traduzido do inglês), a intolerância ao glúten tem crescido de forma epidêmica
nos EUA e também no mundo. Estima-se que atualmente cerca de 5% da população
dos EUA e da Europa sofram desse mal.
Os
sintomas da doença incluem náusea, diarreia, erupções cutâneas, anemia macrocítica
e depressão. Trata-se de uma doença multifatorial associada a diversas
deficiências nutricionais. Está também relacionada a problemas reprodutivos e
ao aumento do risco de desenvolvimento de doenças da tireoide, insuficiência
renal e câncer.
Os
pesquisadores sugerem que o glifosato, o ingrediente ativo do herbicida Roundup, pode ser o principal fator
causador dessa epidemia.
Um
estudo recente relatado no artigo demonstrou que peixes expostos ao glifosato
desenvolvem problemas digestivos semelhantes à doença celíaca. Segundo os
autores, a doença celíaca está associada a desequilíbrios que podem ser
completamente explicados pelos efeitos conhecidos do glifosato sobre as
bactérias do intestino.
Características
da doença celíaca incluem a diminuição de muitas enzimas citocromo P450, que
atuam na desintoxicação de toxinas ambientais, na ativação da vitamina D3, na
catabolização da vitamina A e na manutenção da produção dos ácidos biliares e
de fontes de sulfato para o intestino.
E,
segundo apontam os autores do estudo, o glifosato é conhecido por inibir as
enzimas citocromo P450. Também as deficiências em ferro, cobalto, molibdênio,
cobre e outros metais raros associadas à doença celíaca podem ser atribuídas à
forte habilidade do glifosato de quelar esses elementos. Da mesma forma,
deficiências em triptofano, tirosina, metionina e selenometionina associadas à
doença celíaca correspondem à conhecida capacidade do glifosato de esgotar
esses aminoácidos.
Os
pesquisadores ressaltam ainda que portadores da doença celíaca têm maior risco
de desenvolver linfoma não Hodgkin, doença que também tem sido associada à
exposição ao glifosato. Além disso, argumentam, problemas reprodutivos
associados à doença celíaca, tais como infertilidade, abortos e o nascimento de
bebês com malformações, podem ser explicados pelo glifosato.
Os
pesquisadores relatam então que resíduos de glifosato no trigo e em outras
culturas tem crescido significativamente nos últimos anos devido à prática da
dessecação das lavouras com o veneno para facilitar a colheita, o que tem
aumentado a exposição da população ao veneno através da alimentação. Chamam
ainda a atenção para o fato de que, desde 2001, o uso do glifosato na
agricultura aumentou exponencialmente em função da difusão das lavouras
transgênicas Roundup Ready, tolerantes à aplicação do
produto. O veneno é hoje o herbicida mais utilizado no mundo, sobretudo em
função de sua suposta baixa toxicidade e do preço que se tornou baixo depois
que a patente do produto expirou e marcas genéricas passaram a ser
comercializadas.
Em
suma, os autores do artigo desenvolvem e fundamentam o argumento de que o
alarmante aumento da incidência da doença celíaca nos EUA e no resto do mundo
nos anos recentes é devido ao aumento no uso de herbicidas na agricultura e, em
especial, ao aumento da exposição da população ao glifosato através dos
resíduos presentes nos alimentos.
Eles
concluem com um apelo aos governos para que revejam suas políticas com relação
à segurança dos resíduos de glifosato nos alimentos.