quinta-feira, 29 de junho de 2017

Bon Voyage!

Bon Voyage!

Toda vez que me via mergulhado numa crise, quando a única coisa sensata a fazer era abandonar o emprego, o casamento, a cidade em que vivia, ou mesmo este miserável planeta que habitamos (miserável porque assim o tornamos, dada a nossa incrível capacidade de tudo corromper) – todas as vezes, enfim, que a vida me proporcionava algo mais excitante que a letargia do cotidiano, lá ia eu para os braços da prosa revigorante de Henry Miller. Ia, é claro, em busca de um antídoto contra a falta de coragem para fazer “a ruptura necessária. ”

E o resultado era sempre o mesmo: os livros de Miller, como uma tisana milagrosa, destilavam em minhas veias o dom de aceitar os desafios, de encará-los como um caminho para a salvação.

            Outro aspecto da obra de Miller que não deve ser menosprezado é sua atmosfera oriental. Aliás, a própria pessoa de Miller lembrava a de um velho sábio chinês. Não é raro, por exemplo, em meio à narrativa autobiográfica, defrontarmo-nos com um fluxo de pensamentos que muito devem à tradição asiática. George Ohsawa insistiu em que a vida humana não é senão uma viagem, uma viagem que, para os mais afortunados, dura em torno de oitenta anos. Ohsawa gostava de dizer que viemos à Terra para participar de um grande piquenique. Não é esse o espírito que anima o texto de Miller reproduzido a seguir?








S
ubitamente, senti-me tão tremendamente feliz que tive ímpetos de levantar-me e gritar ou cantar. Mas só podia pensar: “Bon Voyage!” Que frase aquela! A gente passa a vida toda vagabundeando por aí, a murmurar uma frase tomada por empréstimo aos franceses, mas será que alguma vez, realmente, chegamos a fazer uma boa viagem? E será que compreendemos que, mesmo quando caminhamos até o bistrô ou até o armazém da esquina, o que estamos fazendo é partir numa viagem, da qual talvez não retornemos jamais? Se acaso sentíssemos intensamente que cada vez que zarpamos de casa embarcamos numa viagem, será que nossas vidas seriam um pouco diferentes do que são agora? Enquanto fazemos nossa viagem à esquina, a Dieppe, a Newhaven, ou a outro lugar qualquer, a Terra também está viajando, para ninguém sabe onde, nem mesmo os astrônomos. Mas todos nós, quer nos movamos daqui à esquina, ou daqui à China, viajamos junto com nossa mãe, a Terra, que viaja junto com o Sol, o qual, por sua vez, arrasta consigo todos os planetas... Marte, Mercúrio, Vênus, Netuno, Júpiter, Saturno, Urano. O firmamento inteiro viaja, e, se você prestar atenção, poderá ouvir o ecoar de um “Bon Voyage!”, “Bon Voyage!” Se você se mantiver bem quieto, sem fazer perguntas tolas, compreenderá que viajar nada mais é que uma ideia; que tudo na vida se resume nisso, numa viagem dentro da outra. Que a morte não é a última delas, mas o princípio de uma outra, cujo porquê e destino desconhecemos. Mas, mesmo assim, “Bon Voyage!” Tive vontade de levantar-me e cantar tudo isso em dó menor. Via o Universo como uma rede de caminhos, alguns profundos e invisíveis como as órbitas planetárias; e, nesse vasto e nebuloso ziguezaguear pelas passagens fantasmagóricas, existentes entre um domínio e outro, podia ver todos os seres, animados e inanimados, acenando uns para os outros: as baratas para as baratas, as estrelas para as estrelas, o homem para o homem, Deus para Deus. Todos a bordo, para a grande viagem a lugar nenhum. Mas, de qualquer maneira, “Bon Voyage!” Da osmose ao cataclismo, tudo é perpétuo movimento, vasto e silencioso. Permanecer  imóvel, dentro deste grande e alucinado movimento, mover-se com a Terra, por mais que ela cambaleie, unir-se às baratas, às estrelas, aos homens e aos deuses, isso é viajar!

Sim, por Cristo, agora posso afirmar com a consciência tranquila. Sim, eu também escrevo livros de medicina, maravilhosos livros de medicina, que curam todos os males no tempo e no espaço. De fato, agora mesmo estou escrevendo o maior de todos os purgativos da consciência humana: o sentimento de viagem!




segunda-feira, 29 de maio de 2017

A mais nova cura milagrosa do câncer

A mais nova cura milagrosa do câncer
Carl Ferré




A
lguns pesquisadores afirmam – e alguns sites repetem – que o bicarbonato de sódio pode curar o câncer e outras doenças. A lógica por trás de tal afirmação resume-se ao seguinte: o câncer é causado ou estimulado por um ambiente interno excessivamente ácido. O bicarbonato de sódio é alcalinizante e ajuda a eliminar a acidez. Como a dieta ocidental típica produz um ambiente interno ácido, soluções alcalinas podem reverter esse quadro doentio.

Um dos princípios da macrobiótica ensina que a toda face corresponde um dorso, e que quanto maior a face, maior o dorso. Tudo aquilo que tem a capacidade de “curar” o câncer também tem a capacidade de produzir um grande estrago. Isto é verdade tanto no que diz respeito à quimioterapia quanto no diz respeito ao bicarbonato de sódio. Como acontece com qualquer medicamento, é preciso pesar os prós e os contras. Neste artigo examinarei as consequências internas do uso do bicarbonato de sódio.

Três das principais funções da vida são a respiração, o batimento cardíaco e a manutenção do pH sanguíneo entre 7,35 e 7,45. Tenhamos ou não consciência da respiração, o fato é que respiramos. Prestemos ou não atenção ao batimento cardíaco, o fato é que o coração não para de bater. Independentemente do que fazemos ou ingerimos, o organismo se esforça por manter inalterável o pH do sangue.

Por outro lado, não é menos verdadeiro que podemos aprimorar nossa saúde dirigindo nossa consciência para cada uma daquelas funções vitais. Meditação diária, yoga ou outra prática relaxante que nos permita concentrar na respiração, produzem um efeito alcalinizante. Quanto mais saudável é a nossa condição cardiovascular, menos suscetíveis somos aos estados ácidos. Adotar uma dieta que inclua ligeiramente mais alimentos alcalinizantes do que alimentos acidificantes é um importante passo para aperfeiçoar nossa saúde e alcançar a longevidade.

ALIMENTOS ACIDIFICANTES E ALIMENTOS ALCALINIZANTES

Mais importante do que saber se um alimento é ácido ou alcalino é saber se ele produz um efeito ácido ou um efeito alcalino.

Quando chegam ao estômago, os alimentos encontram um pH de aproximadamente 2,0. Este pH, 100 mil vezes mais ácido do que o pH neutro, desempenha um papel fundamental na digestão dos alimentos. Só após deixarem o estômago é que os alimentos apresentam efeitos ácidos ou alcalinos.

Alimentos ricos em proteína, gordura e carboidratos são acidificantes. Alimentos ricos em minerais e vitaminas são alcalinizantes. Não é difícil concluir, pois, que a típica refeição ocidental, composta de carne vermelha, pouquíssimos vegetais, sobremesas e bebidas açucaradas, é fortemente acidificante. Se ainda levarmos em conta que as pessoas praticam atividades físicas sem se dedicarem suficientemente ao relaxamento e à respiração profunda, compreenderemos facilmente a atração que sentem pela alcalinização relâmpago. Há, entre os expedientes disponíveis para alcançar a alcalinização instantânea, desde as caríssimas máquinas que tornam a água alcalina até o relativamente barato bicarbonato de sódio.

ELEMENTOS QUÍMICOS ALCALINIZANTES E EXCESSO DE ACIDEZ

Os quatro principais elementos químicos formadores de alcalinidade são o sódio, o potássio, o cálcio e o magnésio. Esses elementos formam bicarbonatos dentro do nosso corpo. Para manter estável o pH sanguíneo, o corpo conta habitualmente com o trabalho dos rins. Em sua tarefa de filtrar o sangue, os rins retêm ou excretam bicarbonato. Porém, se insistimos durante um longo período numa dieta e num estilo de vida acidificantes, chegará o momento em que o organismo se ressentirá da falta de bicarbonato. Então, outros mecanismos de compensação serão acionados, e numa situação extrema o corpo não hesitará em extrair de outras regiões os elementos alcalinos de que necessita, tal como o cálcio dos ossos, dentes e outros tecidos.

Os primeiros sintomas do excesso de acidez são fadiga e letargia mental, já que os processos orgânicos perdem eficiência ao terem que lidar com tal desequilíbrio. Os sintomas subsequentes são problemas de pele e problemas relacionados à micção: é que os rins, para livrarem o corpo do excesso de acidez, o fazem através da pele e da urina. Alguém com osteoporose deveria alcalinizar seu organismo o mais rápido possível, a fim de evitar que seus ossos continuassem a perder cálcio em decorrência da grave acidificação.

Algumas pessoas, prisioneiras da dieta extremamente acidificante que adotaram, preferem equilibrar o organismo ingerindo bicarbonato de sódio ou água alcalinizada. Tais soluções raramente são eficazes, pois o corpo se enfraquece quando tem de lidar com extremos continuadamente. Além disso, ingerir bicarbonato de sódio durante mais de duas semanas pode ser perigoso. Há ainda aqueles que escolhem usar bicarbonato de sódio por um curto período para alcalinizar rapidamente, enquanto introduzem algumas mudanças em sua alimentação.

USANDO BICARBONATO DE SÓDIO INTERNAMENTE

Alguns sites que divulgam o bicarbonato de sódio como solução para o câncer afirmam que se trata de uma alternativa cem por cento segura e natural. Completamente oposta é a opinião do site WebMD, que classifica o bicarbonato de sódio como droga e alerta para seus perigos e possíveis efeitos colaterais. Segundo o mesmo site, os médicos prescrevem bicarbonato de sódio em forma de pílulas principalmente como antiácido de ação rápida contra azia, indigestão e dor de estômago. É somente utilizado para alívio imediato durante no máximo duas semanas. Em nenhuma altura da página WebMD há menção sobre o uso do bicarbonato de sódio em casos de câncer.

A seguir forneço uma lista de precauções e advertências que devem ser levadas em conta quando se usa bicarbonato de sódio internamente.

1.         Seja muito cuidadoso com o consumo de sódio. De acordo com a Clínica Mayo, a dose diária de sódio recomendada é no máximo 2,3 mg. Para os afrodescendentes maiores de 51 anos, e para aqueles com pressão arterial elevada, diabetes ou doença renal crônica, a dose diária cai para 1,5 mg. Uma colher de chá de sal de cozinha contém 2,325 mg de sódio. Uma colher de chá de bicarbonato de sódio contém em média 1,232 mg de sódio.

2.         Não dê bicarbonato de sódio a crianças menores de 5 anos nem o ingira se estiver grávida ou amamentando sem antes consultar um médico ou um profissional da saúde.

3.         Consulte um médico se qualquer efeito colateral aparecer. Alguns efeitos colaterais frequentes são náuseas e inchaço no abdômen. Efeitos colaterais mais graves, embora raros, incluem inchaço das mãos, tornozelos e pés, ganho inusitado de peso, tonturas, dores musculares, espasmos, mudanças de comportamento (confusão mental, irritabilidade, problemas de memória), vômitos, fraqueza, mudanças no volume de urina, dor no peito, convulsões, alcalose, quantidade elevada de cálcio no sangue e reação alérgica grave.

4.         Não ingira mais do que ½ colher de chá rasa de bicarbonato de sódio por vez ou mais do que 3,5 colheres de chá por dia, ou ainda 1,5 colher de chá se já passou dos 60 anos. Note: 3,5 colheres de chá de bicarbonato de sódio contêm 4,312 mg de sódio, ou seja, quantidade bem superior à permitida por dia.

5.         Preste atenção à advertência exibida na embalagem: “A fim de evitar lesões graves, só ingira o produto após ele dissolver-se completamente na água. É muito importante não fazer uso desta substância quando o aparelho digestivo encontrar-se sobrecarregado de alimentos ou bebidas.” A introdução de uma substância altamente alcalina como o bicarbonato de sódio no estômago pode prejudicar o funcionamento normal dos seus ácidos. O corpo necessita tanto de ácido como de alcalino, e quantidades exageradas de um deles interferirá negativamente sobre nossa saúde, especialmente se tal desequilíbrio permanecer durante longo período. O autotratamento do câncer e outras doenças graves nunca é aconselhável. Você deve discutir o uso do bicarbonato de sódio com seu médico, principalmente se estiver tomando medicamentos. Conscientize-se dos perigos e dos possíveis efeitos colaterais do produto. Qualquer pessoa com acidose (pH sanguíneo insistentemente abaixo de 7,35) ou alcalose (pH sanguíneo continuamente acima de 7,45) deveria contatar um médico imediatamente, já que tais estados são considerados graves e requerem um exame completo das atividades orgânicas. Note: o único meio de testar o pH é num laboratório. O pH da saliva e da urina varia enormemente e não é absolutamente um indicador do pH do sangue.

COMBATENDO A ACIDIFICAÇÃO

Há caminhos mais convenientes de combater a acidificação do que a ingestão de bicarbonato de sódio. O primeiro deles é o uso de sal marinho e de produtos que o contém em lugar do sal refinado. No sal marinho encontram-se o cálcio, o potássio e o magnésio, além do sódio e muitos outros minerais imprescindíveis à saúde.  Produtos entre cujos ingredientes está o sal marinho, como missô, shoyu e umeboshi, são excelentes alcanilizadores. O outro caminho é analisar a dieta do dia a dia, com o objetivo de eliminar os alimentos que provocam acidez.

Todos os alimentos ricos em proteínas provocam acidez; alguns, porém, são menos acidificantes que outros. Uma maneira de alcalinizar consiste em reduzir o consumo de alimentos fortemente acidificantes e aumentar o de alimentos levemente acidificantes. Aqui está uma lista de alimentos proteicos ordenados do mais para o menos acidificante: carne vermelha › aves › peixes › cereais integrais e feijões › leite e derivados › nozes e sementes › ovos caipiras. Uma dieta vegana (que exclui qualquer alimento de origem animal), com consumo reduzido de açúcar refinado ou mesmo sua total exclusão, constitui uma excelente opção para equilibrar o ácido e o alcalino.

Algas marinhas contêm muito minerais e são alimentos fortemente alcalinizantes. Ingeri-las com regularidade é uma boa forma de alcalinizar, assim como incluir mais verduras frescas nas refeições. A maioria das frutas são alcalinizantes para as pessoas em boas condições de saúde, mas podem ser acidificantes para as que sofrem de qualquer enfermidade. O açúcar refinado e os alimentos açucarados são extremamente acidificantes, e devem ser evitados. Malte de arroz integral ou de cevada são alternativas interessantes. 

Em suma: utilizar sal marinho em vez de sal refinado, comer mais vegetais e outros alimentos alcalinizantes, reduzir o consumo de produtos extremamente acidificantes apresentam-se como alternativa mais natural para combater a acidez excessiva do que o uso do bicarbonato de sódio ou outras substâncias altamente alcalinas.