domingo, 9 de junho de 2019

Sagen Ishizuka: A Potência Transformadora do Alimento (Parte sexta)



Sagen Ishizuka:

A Potência Transformadora do Alimento
(Parte sexta)
                                                                                                               
                                                                                                                                               Ronald Kotzsch





A teoria de Ishizuka fundamenta-se em conceitos bastante simples. Em primeiro ligar, afirma que a saúde e a longevidade humanas dependem do equilíbrio, no corpo, entre os sais de sódio e potássio. Enquanto a teoria nutricional do Ocidente (tanto a daquela época quanto a de hoje) enfatizava as proteínas e os carboidratos, Ishizuka insistia na importância crucial dos minerais, em especial do sódio e potássio. A proporção entre eles determina a habilidade do corpo de absorver e utilizar outros nutrientes. De que o sódio e o potássio estejam em franca harmonia depende o funcionamento adequado de todo o organismo humano.

O segundo princípio sustenta que é o alimento o fator mais importante na determinação deste equilíbrio fundamental. Outros fatores, tais como a geografia, o clima e a frequência da atividade física, também desempenham o seu papel. Viver no litoral ou nas montanhas, num clima seco ou úmido, ser sedentário ou trabalhador braçal, todas essas variantes produzem um efeito. Mas aquilo que ingerimos é que vai fundamentalmente determinar a taxa de sódio e potássio no corpo.

Por conseguinte, e em terceiro lugar, a saúde e a doença humanas são, sobretudo, efeitos da dieta. A base do bem-estar físico é o alimento diário que fornece o equilíbrio adequado de minerais. Tal dieta proporcionará uma vida longa e livre de doenças. Por outro lado, toda doença se origina no desequilíbrio entre sódio e potássio causado por uma dieta inapropriada. Tanto as doenças contagiosas quanto as degenerativas, garante Ishizuka, têm origem no alimento. Bactérias e vírus afligem somente aqueles que se encontram debilitados e suscetíveis à doença por causa de seu desequilíbrio Na/K. Uma pessoa verdadeiramente saudável, ainda que em contato com patógenos, não cairá doente. A medicina alopática, portanto, objetivando apenas destruir o micro-organismo – em vez de fortalecer o indivíduo contra ele – baseia-se numa visão totalmente equivocada da realidade.

Tendo estabelecido que a saúde e a longevidade baseiam-se na alimentação, Ishizuka interroga-se sobre qual seria a dieta mais apropriada para os seres humanos. O que deveríamos ingerir a fim de manter o equilíbrio ideal entre os minerais? Para responder a esta questão, Ishizuka procede a uma análise da fisiologia humana, da ecologia e da história.

Ao selecionar seus alimentos, deveria o homem considerar, antes de qualquer coisa, sua estrutura fisiológica. Tanto a dentição quanto o sistema digestivo humanos indicam que, por natureza, é o homem um granívoro, ou seja, um ser que se nutre de grãos de cereais. Dos 32 dentes dispostos em sua boca, 4 são caninos pontiagudos, adequados para rasgar a carne; 8 são incisivos, próprios para cortar vegetais e frutas; e os 5/8 restantes, chamados molares, destinam-se a triturar grãos. A estrutura dentária do homem demonstra aproximadamente a porcentagem de cada tipo de alimento na dieta que cumpriria a ele adotar. Além disso, o ser humano é provido de um estômago pequeno e de um longo e retorcido tubo intestinal, enquanto os animais carnívoros apresentam estômagos grandes e intestinos curtos. O sistema digestivo humano é, portanto, especialmente estruturado para lidar com vegetais, dos quais os mais compactos e nutritivos são os cereais em grãos.

O ambiente em que vive o homem também importa ser considerado. De acordo com Ishizuka, consiste o homem, sobretudo, num produto de seu meio natural. Determinado ambiente fornece os alimentos que permitirão ao organismo humano funcionar satisfatória e saudavelmente naquela região e clima particulares. Deveria o homem, portanto, ingerir alimentos que crescem natural e abundantemente no espaço em que ele se fixou. Esses frutos da terra proveem o equilíbrio adequado de nutrientes, especialmente a proporção ideal de Na e K. Segundo Ishizuka, exceto nas regiões árticas e tropicais, o alimento mais abundante e fácil de cultivar são os cereais. A espécie pode variar de região para região; mas, em geral, conviria serem os cereais o alimento principal num clima temperado. Contêm eles, aproximadamente, a relação 3:7 de sódio e potássio, considerada por Ishizuka a ideal para a saúde humana. Os grãos integrais, que conservam a proporção natural de minerais e outros nutrientes, deveriam compor de 60 a 70% da dieta diária.

Ishizuka ainda argumentava a favor de uma dieta baseada em cereais do ponto de vista da história. Toda civilização importante adotou algum grão como alimento principal. No Japão e no Sul da China constituiu o arroz o cereal dominante; no Norte da China, este lugar coube ao painço e ao trigo; nas Américas, ao milho; na Europa do Norte, à cevada e ao centeio. O sentimento geral de dependência para com esse alimento básico é tão forte nos variados povos, que cada grão em particular foi por eles deificado e venerado.

Ishizuka sustenta, pois, que é o homem, por natureza, um comedor de cereais, e que para os habitantes das regiões temperadas não há melhor alimento que os grãos inteiros. Leguminosas, vegetais, sementes, nozes, algas marinhas, peixes, carne de caça e outros produtos regionais deveriam suplementar os cereais. Convém que tais suplementos sejam ingeridos, tanto quanto possível, frescos e na estação propícia. A sábia Natureza providencia ao homem o alimento perfeito para cada estação. Destarte, nos meses de calor, o homem deve ingerir vegetais e frutas da época. No inverno, deve ele contar com alimentos que se preservam facilmente durante um longo período (feijões, algas marinhas, peixes secos) e com frutas desidratadas e vegetais em conserva. O nabo comprido japonês, embora não medrando no inverno rigoroso, quando conservado em sal e farelo de arroz, ajuda-nos a enfrentar as temperaturas muito baixas.

Se para Ishizuka a escolha apropriada dos alimentos constitui o fundamento da boa saúde, a preparação dos mesmos não é menos importante. O uso do calor, água, sal e temperos na cozinha, e a combinação dos vários alimentos afetam o equilíbrio Na/K da refeição e, portanto, a condição daquele que a consome. Mesmo os alimentos indicados – grãos e vegetais da estação – podem provocar doenças quando mal preparados. Por outro lado, alimentos desaconselhados, tais como carne (Na em excesso) e berinjela (K em excesso), quando sabiamente preparados, podem tornar-se inócuos. Ishizuka chama a atenção para o fato de que receitas tradicionais, como carne cozida com gengibre e cebola ou berinjela cozida com missô, refletem um conhecimento, ainda que intuitivo, deste princípio.

A ideia de que é o alimento a causa principal das enfermidades sugere que ele seja também agente de cura. Se determinada dieta leva ao desequilíbrio dos minerais, ao qual se segue a doença, outra dieta pode reinstalar o equilíbrio. De fato, asseverava Ishizuka que o alimento deve ser a base de toda cura verdadeira. Com o alimento selecionado e preparado de acordo com as necessidades de cada doente, quaisquer enfermidades podem, em princípio, ser curadas.

Entretanto, as recomendações de Ishizuka não se restringem à dieta. Ele reconhece o papel complementar dos banhos e exercícios na cura. Exercícios que levam à transpiração provocam a descarga de excesso de sais e estimulam a circulação e digestão. Banhos quentes revelam um efeito semelhante, removendo minerais e instaurando o equilíbrio. Ambos os livros de Ishizuka incluem largas discussões sobre variados tipos de banhos (no vapor, com pedras quentes, turco, etc.) e prescrições para seu uso em diferentes transtornos.

domingo, 10 de março de 2019

Sagen Ishizuka: A Potência Transformadora do Alimento (Parte Quinta)


Sagen Ishizuka:

A Potência Transformadora do Alimento
(Parte Quinta)

                                                                                                                                             Ronald E. Kotzsch




Estimulado por essas fontes, Ishizuka decide mudar sua alimentação. Elimina a carne e o leite, e põe-se a comer arroz não polido como alimento principal. A doença, até então rebelde aos tratamentos modernos, cede diante da sabedoria ancestral.

Por volta de 1880, Ishizuka tinha já, segundo Ohsawa, formulado a base de sua teoria. Mas ele nada publicou à época,  só vindo a fazê-lo mais de uma década depois. Nesse ínterim, deu continuidade a seus estudos e pesquisas, acumulando dados que corroborassem suas ideias. Numa época obcecada pela ciência, foi ele, acima de tudo, um cientista. Procurou, além de testar e validar suas teorias, apresentá-las de um modo convincente. De qualquer maneira, ele e seu trabalho seriam recebidos com escárnio e ceticismo.

Nos anos seguintes Ishizuka continuou os experimentos em si próprio. Certa vez, com o intuito de determinar seus efeitos, alimentou-se exclusivamente com batata-doce durante um mês. Mas não deixava escapar a oportunidade de verificar em outros indivíduos os resultados de determinada alimentação. Como médico da cavalaria, era ele encarregado de recuperar os soldados feridos e doentes. Tentou várias dietas num recruta para saber qual delas estimulava mais sua recuperação. A saúde dos animais também ficava a seu cargo. Em dada ocasião, deparou-se-lhe um cavalo rebelde no acampamento. Ishizuka aboliu a ração de aveia e sal (uma alimentação humana, como ele argumentou) e permitiu que o animal pastasse sobre a grama selvagem. O cavalo tornou-se dócil e fácil de adestrar.

Ishizuka ainda ocupou-se com pesquisas antropológicas, algumas a partir de fontes indiretas. Ele lia tudo sobre os povos tradicionais espalhados pelo mundo – esquimós, mongóis, nativos de Kamchatka –, recolhendo principalmente informações a respeito de suas dietas, fisionomia e características dominantes. Nas forças armadas, ele observou soldados de várias partes do Japão e China. Manteve um registro cuidadoso e sistemático dos tipos físicos e raciais, e das dietas e comportamentos.

Ishizuka também levou a cabo experiências químicas, muitas das quais imaginativas, embora, para nosso olhar contemporâneo, algo primitivas. A fim de comparar a digestibilidade da gema e da clara do ovo, por exemplo, ele planejou uma experiência de laboratório com o missô. As bactérias presentes na pasta de soja fermentada assemelham-se àquelas que realizam a digestão no intestino humano. Ishizuka, então, misturou em um recipiente missô com a gema de ovo, e em outro missô com a clara de ovo. A gema decompôs-se mais rapidamente, sendo, portanto, considerada de mais fácil digestão. Em outra experiência, Ishizuka testou os efeitos do sódio na oxidação. Deixou ele de molho em água salgada uma corda, secou-a e, depois, mediu sua combustibilidade. A corda queimou mais lentamente do que outra inalterada. Ishizuka concluiu, pois, que o excesso de sódio no organismo inibe a oxidação. Além de pesquisar, lia revistas científicas publicadas no Ocidente.

Ishizuka também lia sobre história dos alimentos e sabedoria tradicional alimentar, sobretudo do Oriente. Seus estudos sobre o Budismo convenceram-no de que Sidarta Gautama proibira aos monges a ingestão de carne não apenas para evitar o sacrifício de uma vida, mas também para evitar os efeitos adversos da carne sobre o desenvolvimento espiritual. Buda, segundo ele, sustentava que a saúde é a condição natural do organismo humano e que os grãos são o alimento purificador por excelência. Os sábios chineses Confúcio e Mêncio já haviam advertido contra a ingestão de carne e outros alimentos similares. Ishizuka descobriu que durante o Período Han (207 a.C. – 220 d.C.), no ápice da civilização chinesa, o alimento básico era o arroz integral tostado cozido no vapor. Voltando-se para o Japão antigo, tomou conhecimento de que o Imperador Temmu (que governou o país de 673 d.C. a 686 d.C.) expedira uma ordem contra o consumo de animais domesticados, e que entre as leis do clã do samurai KiyomasaKatō (século XV) destacava-se a proibição do polimento do arroz. Informou-se ainda de que, até o período moderno, o costume nacional consistia em alimentar-se apenas duas vezes ao dia, prática que persistiu em certas regiões, como a província de Niigata, mesmo com a ocidentalização.

Em 1895, embora ocupando um alto cargo no Exército (era, o que não deixa de ser irônico, chefe do Departamento Farmacêutico), Ishizuka demitiu-se. Começou a praticar a medicina como profissão liberal e a preparar sua obra para publicação. Justamente nesse período, havia no Japão um movimento conservador e nacionalista. Os valores ocidentais, sobretudo os concernentes à moral e às relações sociais, estavam sendo questionados. Enfatizava-se a cultura tradicional japonesa e a conservação do Yamato-damashii. Talvez Ishizuka tenha sido encorajado por essa reação a apresentar suas ideias ao público.

De qualquer forma, em 1897 Ishizuka publicou seu opus magnum: KagakutekiShoku-YōChōjuron (Teoria Nutricional e Química da Longevidade). O volume, de 500 páginas, expõe os resultados de todos os seus estudos e pesquisas. Na primeira página ele anuncia seu propósito: “formular uma disciplina alimentar prática baseada em leis científicas.” E ele é fiel a esse objetivo. Sua teoria geral da fisiologia humana, do alimento, da saúde, da doença e da medicina fundamenta-se na relação entre os elementos químicos sódio (Na) e potássio (K). Ishizuka descreve as características dos dois sais e explica como eles controlam o funcionamento de todo o organismo humano. Ele fornece tabelas com a análise dos conteúdos de sódio e potássio nos vários alimentos, além de mapas com a distribuição geográfica desses últimos. Apresenta tantas informações científicas, que quase compromete a importância prática de seu livro.

Quando Ishizuka menciona práticas tradicionais e a sabedoria popular, ele deixa claro que seu objetivo é tão somente fornecer evidências comprobatórias. Sua teoria sustenta-se na química e ciência moderna. Ele não lança mão de termos tradicionais. Ohsawa, que introduziu a filosofia do Yin e Yang no movimento inaugurado por Ishizuka, alega que a teoria do sódio-potássio derivou dessa antiga classificação dos fenômenos. Embora Ishizuka tenha provavelmente sofrido influência do pensamento antigo, arraigado na cultura japonesa, ele não dá indicações que comprovem tal fato. Ele menciona os termos uma ou duas vezes, casualmente, e segue mantendo tanto uma abordagem quanto um vocabulário admiravelmente moderno e científico. Escrevendo em plena era da ciência, Ishizuka não se arriscou a comprometer sua mensagem com o uso de categorias e conceitos considerados obsoletos e supersticiosos.

Em 1898 um segundo livro vem a lume: ShokumotsuYōjōhō: IchimeiKagakutekiShoku-Yō Tai Shin Ron (Um Método para Nutrir a Vida por Meio do Alimento: Uma Incomparável Teoria Química e Nutricional do Corpo e da Alma). Ishizuka concebeu esta obra como um manual prático dirigido ao grande público, uma ferramenta para qualquer indivíduo obter “mais saúde, boa memória, desenvolvimento mental e tranquilidade espiritual.” Escrito em linguagem simples e direta, e omitindo a maioria das informações técnicas, o volume concentra-se nos caminhos práticos para se alcançarem a saúde e a longevidade. Ishizuka menciona alguns de seus experimentos e cita evidências históricas e antropológicas, mas em geral remete os leitores à sua primeira obra para maiores detalhes. Embora esclareça que o livro se baseie em rigorosa pesquisa científica, ele insiste sobre suas implicações na vida diária. Ao contrário do Chōjuron, este segundo livro contou com ampla distribuição, alcançando vinte e três edições.

domingo, 13 de janeiro de 2019

Sagen Ishizuka: A Potência Transformadora do Alimento (Parte Quarta)



Sagen Ishizuka:

                    A Potência Transformadora do Alimento 
                                             (Parte Quarta)


                                                                                                     Ronald E. Kotzsch

                                                                                                                                       
Ishizuka também sofreu forte influência de Nanboku Mizuno. Nanboku tornou-se bastante conhecido no final dos anos 1700. Foi ele um pioneiro da fisiognomonia, estudo das relações entre as características físicas e a personalidade dos indivíduos. Para aprofundar-se nesta arte, Nanboku passou anos trabalhando como barbeiro, depois como assistente em instalações públicas de banho, e finalmente como ajudante num crematório. Em tais empregos, teve ele a oportunidade de observar uma legião de indivíduos e correlacionar-lhes o padrão constitucional e os traços fisionômicos com o destino e a personalidade. Em 1788, os primeiros cinco volumes de seu “O Método Nanboku de Fisiognomonia” viriam a lume. Em 1805, os cinco últimos seriam publicados.

A arte de Nanboku consistia fundamentalmente em revelar o caráter de uma pessoa, assim como seu passado e futuro, através da observação minuciosa de sua aparência física. Seus livros trazem longas seções sobre o significado de vários tipos de nariz, olhos, orelhas, boca, cabeça e sinais incomuns. Por exemplo, narinas extremamente alargadas indicam uma pessoa muito enérgica, talvez agressiva; já uma pinta na bochecha esquerda denuncia um tagarela. Nanboku afirmava que, enquanto nossa estrutura fisionômica é em grande parte herdada, nossa aparência é radicalmente influenciada por nossa alimentação e estilo de vida. Este ponto de vista bem como a ideia de que a fisiologia está intimamente relacionada à psicologia, ao comportamento e mesmo à espiritualidade influenciaram sobremaneira a Ishizuka.

Provavelmente Ishizuka deixou-se inspirar também pela obra de Ekken Kaibara, filósofo, escritor e divulgador do pensamento e da moral confucianos que viveu entre 1630 e 1714. Kaibara escreveu sobre uma ampla variedade de temas, incluindo filosofia, educação, ética e história natural. Sua obra “Regras para Nutrir a Vida” consiste num manual prático de higiene e cuidados para com a saúde. Amplamente lida no Período Edo, converteu-se num clássico da medicina e sabedoria populares. Embora Ishizuka não a mencione em seus próprios escritos – e tampouco o faça Ohsawa em sua biografia de Ishizuka–, muito provavelmente a obra teve grande influência sobre o pensamento do precursor da macrobiótica. É inconcebível que, na qualidade de sério estudante da medicina tradicional, não tenha Ishizuka compulsado desde cedo o famoso volume.

Os ensinamentos médicos e práticos de Kaibara baseiam-se largamente nos antigos textos chineses, incluindo o Tratado de Medicina Interna do Imperador Amarelo. Uma de suas ideias centrais insiste em que, dos diversos fatores que afetam nossa saúde, o alimento e a bebida são os mais importantes. Para defendê-la, cita um antigo ditado: “Se a calamidade sai pela boca, a doença por ela entra.” Afirma que “de tudo o que comemos e bebemos, o mais importante é o arroz.” Podemos suplementá-lo com carne e vegetais; “a carne, ingerida raramente, não traz consequências funestas.” Citando ainda os antigos, escreve: “Os cereais devem prevalecer sobre a carne”, “a carne dos quadrúpedes revela-se prejudicial aos japoneses, dada a debilidade de seus intestinos e estômago.”

A essência da terapêutica de Kaibara reside no autocontrole e na moderação, seja no beber e no comer, seja na atividade sexual, no dormir e na conversação. Dever-se-ia comer apenas quando a sensação de fome estivesse claramente presente, e só o correspondente a 80% da capacidade do estômago. Não se deveria dormir logo após as refeições, mas sim executar alguma atividade leve, sendo a caminhada uma excelente opção. Seria aconselhável ainda diminuir deliberadamente a frequência da atividade sexual com o passar dos anos. Recomendar-se-ia também não dormir muito nem deixar-se levar pela tagarelice. O segredo da saúde e da longevidade está, pois, em controlar esses desejos e evitar as sete emoções extremas: alegria desmesurada, raiva, preocupação, tristeza, medo, melancolia e espanto. Procedendo assim, seria o homem capaz de conservar a vitalidade e viver uma longa vida, livre de doenças e debilidades.

Segundo Kaibara, a vida do homem pode e deveria ser longa e feliz. Poderia o homem chegar, segundo Kaibara, tranquilamente aos cem anos. Se alguém pratica o Yōjōhō (“método para nutrir a vida”), isso pode muito bem ser concretizado. E durante esse tempo, o homem deveria ser feliz e saudável, capaz de experimentar prazer infinito mesmo nas coisas simples do dia a dia, como ler poesia, contemplar a natureza e a mudança das estações, comer vegetais cultivados em seu próprio quintal, beber saquê (moderadamente, é claro!). “Afinal de contas, deleite e prazer são coisas a que o Céu e a Terra destinaram os seres viventes, e de que os homens já nasceram dotados.” Kaibara é um defensor da moderação, não do ascetismo. Para ele, uma vida curta ou enferma constitui uma calamidade que o homem atrai para si mesmo mediante a imprudência e a autoindulgência. É uma espécie de suicídio.

domingo, 30 de dezembro de 2018

Tornar-se humilde e puro


“É preciso esquentar o ferro várias vezes e martelá-lo muito tempo, antes que ele possa tornar-se aço temperado. E só então é possível dar-lhe a forma que se deseja e dele fazer uma espada cortante. Da mesma forma, um homem deve passar várias vezes pela fornalha das tribulações, deve ser batido pelas perseguições do mundo antes de tornar-se humilde, puro e capaz de ascender à presença de Deus”.

Ramakrishna

sábado, 8 de dezembro de 2018

Sagen Ishizuka: A Potência Transformadora do Alimento (Parte Terceira)



Sagen Ishizuka:

A Potência Transformadora do Alimento
(Parte Terceira)
                                                                                                                                  Ronald E. Kotzschmeuip.co


Sagen Ishizuka nasceu justamente às vésperas de entrar o Japão nesse período de reviravoltas. Sua família, pertencente à classe samurai, habitava uma remota região defronte ao mar do Japão. Sua educação formal foi concluída quando contava ele 18 anos. Mas Ishizuka não abandonou os estudos: neles prosseguiu por conta própria, sendo particularmente atraído por línguas estrangeiras e ciência ocidental. De acordo com a biografia escrita por Ohsawa, Ishizuka dominava o francês, o alemão, o holandês e o inglês, o que lhe permitiu aprofundar-se nos estudos científicos. Ele copiou à mão todo um volume sobre astronomia publicado em holandês.

Predestinado à medicina, Ishizuka trabalhou num hospital em Fukui, sua terra natal, onde entrou em contato como os métodos terapêuticos tradicionais. Exatamente quando a medicina ocidental começou a introduzir-se no país, transferiu-se ele para Tóquio, trabalhando e estudando num hospital da região. Com o tempo, graças a continuados estudos de ciência e medicina ocidental, obteve o título de doutor. Aos 28 anos tornou-se médico do exército japonês.

Desde a infância Ishizuka sofria de enfermidade renal crônica, a qual se manifestava como inflamação cutânea grave. No início de sua carreira militar, a doença intensificou-se e ameaçou incapacitá-lo para a vida profissional. Como não conseguia alívio com a medicina que ele próprio praticava, a medicina alopática, voltou-se então para a tradição oriental. O Tratado de Medicina Interna do Imperador Amarelo impressionou-o bastante. O livro estimulou-o a seguir uma linha de estudos e tratamentos totalmente conflitantes com as novidades da época.

Escrito provavelmente no ano 500 a.C., o Tratado de Medicina Interna do Imperador Amarelo consiste numa compilação da sabedoria médica da antiga China. Trata-se de um manual sobre anatomia humana, tipos e causas de doenças, métodos de diagnose e espécies de tratamentos. Sua exposição baseia-se na Teoria dos Cinco Elementos ou Energias, segundo a qual há cinco transformações da energia vital ou Ch’i. Os Cinco Elementos ou Energias correspondem à Terra, Água, Madeira , Metal e Fogo. Órgãos, doenças, sintomas e tratamentos (na verdade, todos os fenômenos) podem ser classificados de acordo com essas cinco “fases”, todas dinamicamente relacionadas entre si. A maior parte da obra trata da clínica e da técnica, embora se ocupe também dos princípios básicos da saúde e doenças humanas.

O Tratado, por exemplo, ensina que há uma relação fundamental entre alimento, saúde e doença. De acordo com a Teoria das Cinco Energias, há cinco sabores – doce, ácido, amargo, salgado e picante –, e cada um deles está em correspondência com determinado órgão do corpo humano. Ingerir exageradamente um alimento de certo sabor enfraquecerá o órgão ou função que lhe é correspondente. A alimentação, portanto, pode ser a principal causa das doenças.

O livro também afirma que o alimento constitui o meio fundamental para tratar as enfermidades. No texto pode-se ler que na “época medieval” os sábios tratavam as doenças primeiramente pela dieta, em geral prescrevendo um regime de papa de arroz por dez dias. Caso este tratamento não eliminasse o problema, recorria-se a raízes e plantas medicinais para harmonizar as energias. Acupuntura e moxabustão eram empregadas somente como último recurso. Se as emoções e a força de vontade do paciente se encontram em equilíbrio, diz o Tratado, obtém-se a cura simplesmente com cereais. Os grãos possuem um poder especial como alimento humano. Água e grãos constituem a raiz da vida, e “a morte sobrevém apenas quando a água e os grãos escasseiam.” O arroz, em particular, é mencionado como alimento vital e harmonizante. Métodos de prepará-lo, e até mesmo o combustível ideal para cozinhá-lo (palha de arroz), são levados em conta.

A essência do Tratado consiste no entendimento de que, por natureza, o homem é saudável, sendo a doença uma anomalia. Para manter ou recuperar a saúde, é necessário apenas viver em harmonia com o meio ambiente. O “autêntico sábio” vive de acordo com as leis do Yin e Yang, as quais governam todos os fenômenos. Ele bebe e come moderadamente, e regula sua vida em conformidade com os ciclos do sol, da lua e das quatro estações. Desfruta, por conseguinte, uma vida longa e feliz. Está mais interessado em prevenir as doenças do que em curá-las.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Sagen Ishizuka: A Potência Transformadora do Alimento (Parte Segunda)



Sagen Ishizuka:

A Potência Transformadora do Alimento
(Parte Segunda)

                                                                                                                     Ronald E. Kotzsch




Foi, portanto, uma cultura tradicional e estável que o Comodoro Perry deparou ao invadir com sua esquadra a baía de Edo em julho de 1853. Num gesto tipicamente “sutil” de diplomacia militar, Perry exigiu do Japão a abertura dos portos, prometendo retornar com mais navios caso fosse necessário. O Japão, percebendo que suas espadas e arcos nada podiam contra os canhões americanos, cedeu à exigência. A partir daí, começa a história moderna da nação japonesa.

Orgulhosos e patriotas, não estavam os japoneses absolutamente dispostos a ver seu país transformar-se numa colônia. Restituído o poder político à Família Imperial e instaurado um forte governo central, eles iniciaram um consciente, enérgico e bem sucedido projeto de modernização. O Japão logo compreendeu que, para permanecer independente, necessário era apropriar-se do conhecimento ocidental. Missões oficiais foram enviadas à Europa e América com o propósito de observar, estudar e assimilar elementos-chave da cultura ocidental. A cientistas, engenheiros, militares, advogados e outros especialistas estrangeiros foram oferecidos altos salários para que viessem ao Japão viver e ensinar. Desse modo, o país rapidamente importou e adotou várias criações do ocidente: a ciência e a tecnologia; as técnicas militares; padrões políticos e econômicos. Linhas telegráficas, ferrovias, fábricas despontavam na até então imaculada paisagem japonesa.

O país manteve dois ideais durante esse período. O primeiro resumia-se na expressão fukokukyōhei, “uma nação rica e militarmente forte.” O segundo sintetizava-se nas palavras wakonyōsai, “a alma do Japão e a tecnologia do Ocidente.” Os japoneses recusavam a converter-se numa pálida cópia do Ocidente. Desejavam preservar seu caráter nacional, aquela enigmática e poderosa mistura de cortesia, disciplina e espiritualidade que era o Yamato-damashii, “o espírito do Japão”. Queriam, ansiavam mesmo, assenhorar-se do conhecimento científico e técnico do Ocidente, mas não do “espírito do Ocidente”.

Mas, na realidade, mostrou-se difícil manter essa distinção. Os japoneses logo importaram as novidades científicas, tecnológicas, industriais, políticas, jurídicas. Contudo, também adotaram, com igual fervor, os padrões ocidentais de arte, música, literatura, dança, vestuário, religião, filosofia e moralidade. A elite de Tóquio passou a usar coletes, chapéus, toucas e vestidos longos, e divertia-se em grandes bailes no estilo ocidental. Ela escutava Bach e Beethoven, tocava violino e piano, estuda Kant e Jemery Benthan, e flertava com o Cristianismo. Em quase todas as áreas da vida, o tradicional e oriental foi sendo descartado e substituído pelo moderno e ocidental. Nas recém-instaladas “escolas públicas”, que suplantaram os velhos terakoya, ou “templos escolares”, os pincéis deram lugar às canetas-tinteiro e a maneira japonesa de registrar a música à notação musical ocidental.  Coleções de estátuas budistas, gravuras vívidas e antigos pergaminhos foram vendidos por uma ninharia a colecionadores ocidentais. Templos centenários, frutos do mais puro gênio arquitetônico, foram derrubados e usados para alimentar fogueiras.

Essa rejeição ao antigo e familiar e a adoção cega aos costumes estrangeiros reproduziram-se também no terreno da medicina e nutrição. À época, a medicina ocidental desenvolvia-se rapidamente, e novos e extraordinários meios de tratar as doenças surgiram. No final do século XVIII, William Jenner criou uma vacina contra a varíola. Por volta de 1850, o francês Louis Pasteur tornou pública a teoria segundo a qual a causa primeira das doenças humanas é a invasão do corpo por perigosas formas microscópicas de vida. Uma vez aceito este fundamento da medicina alopática, procurou-se curar as doenças destruindo os patógenos. A descoberta do clorofórmio, no mesmo período, tornou possível o aperfeiçoamento de técnicas cirúrgicas.

Em 1871, os primeiros de uma série de médicos alemães chegaram ao Japão com a missão de praticar e ensinar a medicina ocidental. Em 1883, o governo japonês proibiu a prática da medicina tradicional e erigiu ao posto de medicina oficial do país a alopatia. A Faculdade de Medicina – cujos professores, em sua maioria, eram alemães – transformou-se em secção da jovem Universidade Imperial de Tóquio. Repentinamente, os antigos tratamentos – acupuntura, moxa, massagem e medicina herbária – foram tachados de obsoletos, e aqueles que os praticavam declarados fora da lei. Esses curadores, no entanto, não interromperam abruptamente suas atividades. A maioria deles simplesmente passou a exercer sua arte em segredo, esperando o momento propício para voltar a trabalhar às claras. Mas a partir daí a medicina ocidental foi oficialmente sancionada, e as velhas terapias (e a teoria energética que as embasava), consideradas primitivas e não científicas.

O cenário era similar no campo da nutrição. Na Europa, a moderna ciência da nutrição começa a desenvolver-se em meados do século XIX. Graças principalmente à obra pioneira do bioquímico germânico Justus von Liebig (1803-1873) e seus discípulos, os vários nutrientes disponíveis nos alimentos foram isolados e identificados. Experiências com animais foram realizadas com o propósito de descobrir quais nutrientes – e em que quantidade – eram necessários para manter a vida e seu desenvolvimento. Procedeu-se à análise dos nutrientes de vários alimentos. Essa pesquisa pioneira estabeleceu a base da ciência da nutrição moderna e suas teorias. A proteína foi considerada o nutriente mais importante, essencial ao crescimento e à reparação dos tecidos. Por conseguinte, a carne, os ovos, os queijos e outros produtos animais eram altamente recomendados. Encararam-se os carboidratos como mera fonte de energia, e aos alimentos ricos nesse composto orgânico, tais como batatas e açúcar refinado, atribuíram-se vantagens nutricionais.

Também no território da nutrição, o governo japonês tomou a iniciativa de promover as ideias e práticas do Ocidente. Objetivando aumentar a vitalidade e a força física do povo, as autoridades incentivaram a adição de carne e laticínios à alimentação tradicional. O governo também sugeriu a substituição do arroz pelo pão branco usado no Ocidente. Naquela época, a estatura média do homem japonês correspondia a 1,62 m, enquanto a da mulher japonesa a 1,52 m. Acreditava-se que o segredo da força e do tamanho dos ocidentais, e mesmo da superioridade tecnológica, residia no consumo da carne, trigo e leite.

Os alimentos ocidentais foram-se introduzindo lentamente na dieta japonesa. Ao menos no dejejum das sofisticadas famílias urbanas, torradas com manteiga, salsicha e leite competiam com sopa de missô, arroz e chá. A despeito de seu extenso litoral, o país viu aumentar consideravelmente a demanda por carne, sobretudo bovina e suína, e vários restaurantes especializados em carne de vaca abriram suas portas nas grandes cidades. O açúcar refinado tornou-se um importante ingrediente da culinária japonesa. Provavelmente graças à pressão da indústria açucareira, o dito “açúcar refinado na cozinha é sinal de cultura e requinte” disseminou-se entre a população. Tanto na preparação do arroz e vegetais, como na de doces e sobremesas, o açúcar branco assumiu um papel significativo na culinária japonesa. Batatas foram introduzidas, e seu cultivo, especialmente depois de 1888, encorajado.

A dieta japonesa, é claro, não mudou completamente da noite para o dia. Mesmo hoje, passado mais de um século, arroz, missô, algas marinhas, conservas de vegetais, etc. continuam presentes no dia a dia. O fenômeno explica-se, por um lado, pela dificuldade de eliminar costumes antiquíssimos; e, por outro, pela impossibilidade de o Japão produzir muita carne e alimentos de origem animal. O país é pequeno, mas populoso; e quatro quintos de seu território compõem-se de montanhas escarpadas. As reduzidas terras cultiváveis destinam-se à plantação de arroz, feijão e vegetais. Para vacas e ovelhas pastarem nas terras íngremes impróprias para agricultura, necessário era que viessem ao mundo com outra configuração anatômica. Na melhor das hipóteses, uma família de agricultores poderia criar uma vaca, alguns porcos e algumas galinhas. Assim, dado o seu alto custo, a carne era, e continua sendo, um produto quase proibitivo. Houve, todavia, mudanças no estilo japonês de se alimentar; e ao longo do Período Menji essas mudanças continuaram.

domingo, 30 de setembro de 2018

Sagen Ishizuka: A Potência Transformadora do Alimento (Parte Primeira)


Sagen Ishizuka:
A Potência Transformadora do Alimento
(Parte Primeira)
                                                                                                                                     Ronald E. Kotzsch




É George Ohsawa conhecido geralmente como o fundador da macrobiótica. Embora tenha transmitido ao movimento sua marca pessoal, não foi ele, porém, seu criador. O próprio Ohsawa cita, com frequência, o médico japonês Sagen Ishizuka como inspirador e mestre. Ishizuka, com efeito, iniciou o movimento que mais tarde se chamaria “macrobiótica”. Seus ensinamentos constituem o alicerce sobre o qual Ohsawa e outros mais ergueram a própria obra.

Nascido em 1850, no ocaso do Período Edo (1600-1868), Sagen Ishizuka viveu a fase adulta durante as primeiras décadas do Japão moderno. Nessa época, passou o Japão por céleres e radicais mudanças, substituindo vários elementos de sua cultura tradicional por empréstimos do Ocidente. Ishizuka, percebendo que no campo da alimentação e medicina muitos dos conhecimentos antigos estavam sendo perdidos, resgatou-os e apresentou-os com roupagem moderna e científica.

Do século XVII à primeira metade do século XIX, o Japão isolou-se progressivamente do resto do mundo. A ninguém era permitido sair do país ou a ele retornar, caso houvesse conseguido deixá-lo. Estrangeiros que porventura se encontrassem em solo nipônico corriam risco de vida; e mesmo náufragos na costa do país não eram tolerados. Somente um punhado de comerciantes holandeses exercia sem maiores problemas suas atividades econômicas numa minúscula ilha no porto de Nagasaki.

Para a maioria da população, o sonho de estabilidade e paz internas se havia concretizado. Um forte governo central sob o comando de um líder militar, o shōgun, mantinha o controle quase absoluto de um sistema feudal complexo. A população dividia-se em quatro classes sociais fixas: samurais, agricultores, artesãos e comerciantes – cada qual com seus direitos e deveres específicos. Distúrbios políticos ou sociais, se havia, não alcançavam o menor significado. A economia crescia, embora muito lentamente e dentro dos limites de uma sociedade agrícola e feudal. Vários centros urbanos, incluindo Edo (hoje Tóquio) e Osaka, desenvolveram-se, e neles uma rica cultura artística emergiu. Literatura, pintura, teatro e artesanato atingiram níveis de excelência. A cultura como um todo caracterizava-se por um refinamento estético talvez nunca alcançado na história da humanidade. Da perspectiva do século XXI, o Japão do Período Edo ou Tokugawa se assemelha a um exótico paraíso adornado de âmbar.

Em pleno século XIX era o Japão, portanto, comparado ao Ocidente, um país ainda medieval, intocado pela Revolução Industrial e Científica. A alimentação e a medicina refletiam esse ambiente. A dieta havia mudado muito pouco durante os séculos. O arroz representava a matéria-prima mais importante. Desempenhava ele um papel tão central na vida da nação, que constituía a base do intercâmbio econômico. A riqueza do senhor feudal era mensurada pela quantidade de arroz produzido anualmente por suas terras. Considerava-se o arroz uma dádiva concedida aos ancestrais sobre-humanos da nação diretamente pela deusa do sol. Um provérbio muito comum à época ensinava: “O arroz é Buda.” Enquanto o grão parcialmente polido alimentava os ricos, o grão integral saciava o comum dos homens. Os pobres misturavam o arroz a outros cereais, como cevada e trigo, ou reservavam-no para as férias ou emergências. Um ditado muito popular entre os camponeses – “Chegou mesmo a dar-lhe arroz” – indicava que a doença que atingira um pobre coitado era tão grave, que o autorizava a alimentar-se de arroz. Dizia-se go-han, “honorável arroz”, para referir-se a toda espécie de refeição.

Outro produto muito apreciado era a soja, usada sob a forma de pasta fermentada (misso), molho fermentado (shoyu) e coágulo (tofu). Ingeria-se uma grande variedade de vegetais, e com o nabo comprido japonês (daikon) e a película de arroz (nuka) elaborava-se uma deliciosa conserva chamada takuan. Peixes e vegetais do mar eram também muito utilizados. Frutas, porém, não constavam como parte importante da dieta, sendo a tangerina e o caqui as únicas regularmente cultivadas.

Pouca carne era consumida, dados os preceitos religiosos que a proibiam tanto por parte do Xintoísmo autóctone quanto do Budismo importado por volta do ano 400 d.C. Frango e aves selvagens representavam a maior parte do que se consumia em termos de carne. A criação de animais de grande porte para abate era virtualmente desconhecida. O gado criado destinava-se basicamente à tração animal, pois a ideia de beber leite ou usá-lo para produzir manteiga ou queijo era quase inconcebível. Em 1859, quando o embaixador americano Townsend Harris reclamou uma vaca para beber-lhe o leite, o diplomata japonês escandalizou-se. Ainda no período moderno, comportamentos semelhantes persistiam em determinados rincões do país. Em sua autobiografia intitulada “A Filha do Samurai”, Etsuko Sugimoto narra a própria infância no interior do Japão não muito depois da chegada de Harris. Acreditava-se que o consumo de leite e seus derivados converteria o homem em quadrúpede. Além disso, o uso da carne bovina incluía-se entre os atos abomináveis. Quando o avô de Etsuko, por razões médicas, se viu obrigado a ingerir carne, as portas do santuário da família foram fechadas a fim de que os espíritos dos ancestrais não se sentissem insultados.

A medicina tradicional baseava-se em ideias e práticas que remontavam à aurora da civilização chinesa. Segundo essa tradição, a fisiologia e a saúde humanas devem ser entendidas a partir da noção de Ki (Ch’i, em chinês), a energia vital que permeia todo o universo e transmite vida ao corpo. O ki flui ao longo do corpo por canais conhecidos como meridianos. Há dois meridianos principais, um na região frontal e outro na região dorsal do corpo, além de seis nos braços e seis nas pernas. Cada um desses doze meridianos se conecta a um órgão ou função do corpo, e o desequilíbrio em um órgão manifesta-se como deficiência, estagnação ou excesso de Ki no meridiano que lhe é correspondente. Era por meio do reequilíbrio, estimulando ou sedando os canais energéticos, que as várias artes médicas tratavam as doenças. A acupuntura lançava mão de agulhas de ouro ou prata inseridas em pontos estratégicos ao longo dos meridianos com o propósito de regular o Ki. A moxabustão buscava estimular esses pontos queimando sobre os mesmos pequenas quantidades da erva artemísia. No shiatsu, a estimulação e o reequilíbrio realizavam-se por intermédio da pressão digital. Ervas também eram usadas, agindo internamente sobre os órgãos. O objetivo dessas diferentes técnicas era o mesmo: estabelecer um livre e harmonioso fluxo de Ki através de todo o organismo, a fim de que o “Ki primordial”, genki (termo sino-japonês para “saúde”) fosse reconquistado.

Outro braço dessa tradição médica era a regulação pela dieta. Embora a maioria dos curadores a usassem como medida suplementar a suas técnicas de resultado mais imediato, algum deles a consideravam o tratamento por excelência. No filme “O Barba Ruiva” (Akahige), o diretor Akira Kurosawa se detém sobre a carreira de um médico do Período Tokugawa. Ainda que devotado principalmente aos cuidados dos pobres, Barba Ruiva responde ao chamado de um rico senhor feudal. O nobre– balofo e inchado– mal consegue manter-se de pé. O médico encara-o friamente, cobra-lhe uma quantia exorbitante (para manter sua clínica) e aconselha-o a não comer senão papa de arroz integral por um período indefinido. A expressão de incredulidade na face gorducha do homem comprova que a dietoterapia era um elemento secundário, e não principal, na medicina do Japão pré-moderno.