domingo, 16 de junho de 2013

O Dilema da Vitamina B12

O Dilema da Vitamina B12
Christina Pirello
                                       


Dei ao ano de 1998 o título de “o ano infernal”. Todos os temos, não é mesmo? São anos por cujo término ansiamos. E viver um estilo de vida macrobiótico não garante, absolutamente, imunidade a tais anos. Podemos até gostar de pensar que a macrobiótica, de alguma forma, nos torna magicamente imunes a doenças e a outras calamidades. Mas será que alguém acredita piamente nisso? Em todo caso, eu acreditei. Por ter sobrevivido a um câncer graças à macrobiótica (minha prova de fogo), eu naturalmente pensava que o resto da minha vida transcorreria às mil maravilhas. Mal sabia eu que me encontrava na antessala do departamento de tragédias.
Estávamos em abril. Eu continuava trabalhando 30 horas por dia. Cozinhava em casa, dava aulas particulares e públicas de culinária e ainda ajudava Robert, meu marido, a tocar seus negócios. Na ocasião, eu também me preparava para a primeira temporada de meu programa televisivo de culinária. Eu e Robert já havíamos percebido que o trabalho alterara nossas vidas. Era preciso introduzir algumas mudanças com o propósito de descansar mais, divertir-se mais. Mas, por outro lado, adorávamos nosso trabalho, amávamos trabalhar juntos, e por isso nunca encontramos tempo para mudar de verdade. Afinal, nós estávamos “salvando o mundo” através da alimentação.
Eu estava ministrando um curso sobre alimentos saudáveis e (ah, ironia!) sentindo-me estranhamente irritável. Meu marido, embora com o pé quebrado, tentou ajudar-me a descarregar meus utensílios assim que cheguei a casa após a aula. Lembro-me de ter-lhe dito que ele estava mais atrapalhando do que ajudando, e Robert se foi mancando e um tanto confuso com a minha brusquidez.  Atribuí o mau humor a meu cansaço.
Quando levantei após alojar a última panela no armário de baixo, fui golpeada pela mais assombrosa e intensa dor que já havia experimentado. Era como se um picador de gelo tivesse penetrado na base de meu crânio. Gritei por Robert, que, percebendo o sentimento de pânico na minha voz, apareceu em um segundo. Roguei-lhe que ligasse para a emergência, pois estava tendo uma hemorragia cerebral. Não tenho a mínima ideia de como sabia exatamente o que estava acontecendo. Só sei que sabia. Logo depois, desmaiei.
No hospital, interrogada sobre minha forte dor de cabeça, respondi que estava sofrendo uma hemorragia cerebral. Os médicos, no entanto, disseram-me que era necessário proceder a alguns exames, a fim de constatar o que de fato estava acontecendo. Ao me dar conta de que me encontrava no setor de cuidados neurológicos intensivos, comecei a chorar. Embora fosse a dor excruciante, não era ela a razão de minhas lágrimas. Eu sabia que meu caso era sério, apesar das palavras reconfortantes dos doutores.
Robert permaneceu ao meu lado a noite toda, segurando-me a mão e conversando. Sabíamos que nos encontrávamos, mais uma vez, numa encruzilhada. Alguma mudança se instalaria em nossas vidas: disso estávamos seguros, mesmo não tendo ainda conhecimento da gravidade de minha condição.
No dia seguinte, o chefe do setor de neurocirurgia apareceu. Sentou-se ao meu lado, pegou minha mão e disse: “Trago boa e má notícia. A boa é muito boa, e a má é muito má. Qual você quer ouvir primeiro?”
Com a pior dor de cabeça do mundo, dei-lhe carta branca para escolher. E o que ele relatou chocou-me, levando-me mais uma vez a refletir sobre minha dieta e estilo de vida. Explicou ele que havia eu sofrido um aneurisma cerebral, acrescentando que 85% dos que são acometidos dessas hemorragias não sobrevivem. Como eu estava viva, imaginei que essa fosse a boa notícia.
Graças ao questionário a que eu respondera, o médico sabia que eu não fumava, não bebia café ou álcool, nem ingeria carne ou laticínios; que eu seguia uma dieta extremamente saudável e me exercitava regularmente. Ele também sabia, dado o resultado dos exames, que eu, na idade de 42 anos, não apresentava nenhum indício de placas nas veias ou artérias e nenhum sinal de bloqueio na circulação (fatores geralmente ligados a ocorrências de hemorragia cerebral). Mas o que ele viria a dizer mais tarde causar-me-ia espécie.
Desde que eu não me enquadrava nos padrões de quem é acometido de aneurisma cerebral, os médicos acharam por bem proceder a exames adicionais. Eles eram da opinião que havia alguma condição subjacente que contribuíra para o rompimento do aneurisma (talvez algum componente genético, pois eu apresentava três outros aneurismas na mesma região). Eles também ficaram desnorteados com a rápida regeneração da área onde se deu o rompimento do aneurisma. Os tecidos da artéria literalmente se uniram, e a dor que eu sentia explicava-se pela poça de sangue que pressionava os nervos. “Nunca havíamos testemunhado tal fenômeno”, disseram-me eles.
Concluídos os exames adicionais, o Dr. Zagar veio novamente ao meu encontro. Ele tinha respostas. Explicou que eu me encontrava seriamente anêmica e que meu sangue estava muitíssimo deficiente de vitamina B12, forçando meus níveis de homocisteína a aumentar o suficiente para provocar a hemorragia.
O Dr. Zagar advertiu-me de que as paredes de minhas veias e artérias revelavam-se tão finas quanto papel de arroz, o que se devia àquela deficiência; e que sem suplementação apropriada eu correria o risco de sofrer outra hemorragia, com probabilidade bem menor de final feliz. Além disso, informou-me ele que os resultados de meus exames indicaram ser minha dieta muito pobre em gordura, resultando em outras deficiências (assunto que reservarei para outro artigo). O Dr. Zagar ressaltou ainda que minha alimentação teria de ser modificada o quanto antes, por não ser compatível com meu ritmo de trabalho. Por outro lado, garantiu ele que meu estilo de vida e de alimentação, muito provavelmente, me livrou da morte.
Fiquei desconcertada. Eu seguia a dieta macrobiótica havia pelo menos quinze anos. Robert e eu preparávamos a maior parte de nossas refeições em casa, usando ingredientes da melhor qualidade. Eu acreditei nas informações que ouvia, que eu conseguiria a quantidade suficiente de nutrientes essenciais nos alimentos fermentados que ingeria diariamente. Oh, Deus! como eu estava errada!
Cheguei à macrobiótica com um sólido conhecimento de biologia. No começo de meus estudos holísticos, dada a minha formação científica, relutei muito em acreditar no que estava aprendendo sobre “energia”. Esse ceticismo se foi lentamente arrefecendo, e eu aprendi a unificar os dois estilos de pensamento a fim de criar meu próprio ponto de vista (o qual, aliás, me foi muito útil para lidar com tudo isso).
Comecei a pesquisar sobre vitamina B12, suas fontes e importância para saúde. Conscientizei-me de que, como vegan, enfrentaria dificuldades para consegui-la, uma vez que não me passava pela cabeça ingerir carne alguma. Durante a prática da macrobiótica eu também evitara suplementação, acreditando que obteria todos os nutrientes necessários a partir de uma alimentação sem carnes. O que descobri em minha pesquisa muito contribuiu para a recuperação e manutenção de minha saúde neurológica, tanto que não me vejo mais como uma bomba-relógio ambulante aguardando a próxima hemorragia cerebral.
Neste relato não vai nenhuma crítica a práticas ou crenças alheias. Embora seja tão somente a minha história, sua importância está em que alertamos as pessoas sobre a complexidade envolvida na arte de usar alimentos como fonte de cura.
A seguir, deter-me-ei nos resultados de minha pesquisa sobre a valiosa vitamina B12.
É a B12 uma vitamina do complexo B. Por conter cobalto, é ela também denominada cobalamina. Transmutada exclusivamente por bactérias, encontra-se principalmente em carnes, ovos e laticínios. A vitamina B12 é imprescindível à síntese das células vermelhas do sangue, à manutenção do sistema nervoso e ao crescimento e desenvolvimento das crianças. Por isso, uma deficiência de B12 pode causar anemia, neuropatia, derrame, degeneração das fibras nervosas e lesões neurológicas irreversíveis.
As funções primordiais da vitamina B12 dizem respeito à formação das células vermelhas do sangue e à manutenção da saúde do sistema nervoso. Ela é necessária à rápida síntese do DNA durante a divisão celular, tal como ocorre nos tecidos da medula óssea responsáveis pela formação das células vermelhas do sangue. Se há deficiência de B12, a produção de DNA é interrompida e células anormais chamadas megaloblastos surgem. O resultado é anemia acompanhada de cansaço, falta de ar, desatenção, tez pálida e baixa resistência a infecções, entre outros sintomas.
A B12 é também importante na manutenção do sistema nervoso. Os nervos são circundados por uma bainha oleosa e isolante formada de uma proteína complexa denominada mielina. A B12 desempenha um papel vital no metabolismo dos ácidos graxos essenciais e, por consequência, na manutenção da mielina. Uma prolongada deficiência de B12 pode levar à degeneração dos nervos e a lesões neurológicas irreversíveis, o que não raro resulta em apoplexia e hemorragia cerebral.
A forma mais comum de deficiência ocorre quando há uma falha na assimilação de B12 pelo intestino, e não, como se poderia imaginar, quando há uma deficiência na alimentação. A absorção de B12 requer a secreção pelas células que revestem o estômago de uma glicoproteína conhecida como fator intrínseco. O complexo vitamina B12 + fator intrínseco é então assimilado no íleo (porção distal do intestino delgado) na presença de cálcio. Certas pessoas não são capazes de produzir o fator intrínseco e por isso são tratadas com injeções de B12.
A vitamina B12 pode ser armazenada pelo corpo em pequenas quantidades. Um organismo adulto é capaz de armazenar de 2 a 5 mg de vitamina B12, e 80% dessa quantidade fica estocada no fígado. A B12 é excretada juntamente com a bile e então reabsorvida. Este processo é conhecido como circulação entero-hepática. Pessoas cuja dieta é baixa em B12 – incluindo vegans e alguns vegetarianos e macrobióticos – podem estar obtendo a vitamina mais em função da reabsorção do que de fontes alimentícias propriamente ditas. Por isso, às vezes é necessário decorrerem até mais de vinte anos para que doenças relacionadas à deficiência se desenvolvam em pessoas que aderiram a dietas desprovidas de B12. Em compensação, se a deficiência de B12 se deve a um problema de absorção, os distúrbios podem manifestar-se passados apenas três anos.
As únicas fontes naturais confiáveis de B12 são carnes, laticínios e ovos. Pesquisas foram empreendidas no sentido de descobrir fontes vegetais de B12, quer com subprodutos fermentados da soja, quer com algas ou vegetais do mar. Entretanto, análises dos fermentados da soja, incluindo tempeh, missô, shoyu e tamari, não revelaram níveis significativos de B12.
Por outro lado, spirulina – uma alga disponível em comprimidos como suplemento dietético – e nori – um vegetal marinho – pareciam conter quantidades significativas de B12. Pesquisas recentes têm mostrado, no entanto, que o que esses vegetais apresentam são, na verdade, compostos estruturalmente similares à B12 (análogos da vitamina B12) que o organismo humano não consegue aproveitar.
Estudos têm sugerido que supostos suplementos de B12, tais como spirulina, podem, de fato, aumentar o risco de distúrbios causados pela deficiência dessa vitamina, pois os análogos da B12 podem competir com a autêntica B12 e inibir nosso metabolismo. Por ora, o consenso científico é que nenhum alimento do reino vegetal pode ser considerado fonte confiável de vitamina B12.
Bactérias presentes no intestino grosso são capazes de sintetizar B12. Pensava-se outrora que a B12 produzida por essa colônia de bactérias podia ser absorvida e utilizada por nós. Mas a verdade é que essas bactérias produzem B12 numa região do intestino muito além daquela onde ocorre a absorção.
Boas fontes de vitamina B12 para vegetarianos são laticínios e ovos caipiras. Dependendo de como o iogurte é produzido, boa quantidade de B12 pode ser destruída. Portanto, no que toca aos laticínios, a escolha deve ser muito bem pensada.
E quanto aos vegans? A ciência recomenda que a dieta dos vegans inclua alimentos enriquecidos com vitamina B12. Hoje já se encontram leite de soja, pasta de girassol, cereais matinais aos quais foi adicionada a vitamina B12.
Tendo em vista aqueles que decidiram não ingerir qualquer tipo de proteína animal, é preciso insistir em que não há fonte vegetal de vitamina B12. Eu escolhi usar suplemento sublingual em vez de alimentos enriquecidos. Na verdade, o que importa mesmo é não deixar de incluir esta vitamina essencial na dieta vegan.
Baseada em minha própria experiência, posso eu afirmar que a dieta padrão macrobiótica não me forneceu a quantidade necessária de B12. Com uma simples suplementação, com o aumento da ingestão de gordura de boa qualidade e com um novo entendimento de como balancear trabalho e descanso, eu mais uma vez descobri o quanto a vida é um eterno aprendizado.



Animais evitam Alimentos Transgênicos

Animais evitam
Alimentos Transgênicos
            
               
  
 Um bando de gansos visita um lago em Illinois a cada ano e se alimenta com soja de uma plantação de uns vinte hectares localizada na proximidade. No ano em que o agricultor plantou soja geneticamente modificada na metade da área, ele ficou chocado ao descobrir que os gansos só comiam no lado não geneticamente modificado. Havia uma linha bem no meio da sua plantação com a soja natural em um lado e a geneticamente engenheirada, não tocada pelos gansos, no outro. O escritor sobre temas de agricultura C. F. Marley relatou: “Nunca vi nada como aquilo. O que é incrível é que a área com soja Roundup Ready havia sido plantada com soja convencional no ano anterior, e os gansos a comeram. Este ano, eles nem chegaram perto daquela área.”

Um rebanho de cerca de quarenta veados comeu soja orgânica de uma plantação, mas evitaram a variedade Roundup Ready do outro lado da estrada.

Do livro Roleta Genética: riscos documentados dos alimentos transgênicos sobre a saúde, de Jeffrey M. Smith.


Em Direção ao Abismo

Em Direção ao Abismo


Segundo Walter Benjamin, o capitalismo é como uma locomotiva que caminha progressivamente para abismo. Desta forma, a revolução não seria a continuidade do progresso, mas consistiria em “puxar os freios de emergência” antes que seja tarde demais. "Marx disse que as revoluções são a locomotiva da história. Mas talvez as coisas se apresentem de modo muito diverso. Pode ser que a revolução seja o ato, da humanidade que viaja neste trem, de puxar os freios de emergência." 

Crescimento infinito?

“Quem acredita que um crescimento infinito é compatível com um mundo finito ou é louco ou é economista.”
Georgescu-Roegen

domingo, 5 de maio de 2013

Conexão Dioxina (Documentário)






Ohsawa em Paris



Ohsawa em Paris:
Criando coelhos na Cidade-Luz
                                                                                     

F
inalmente o trem chegou à estação Gare du Nord em Paris. Estava Ohsawa exultante, completamente entusiasmado com a aventura que se descortinava diante dele. Mas encontrava-se também falto de dinheiro, contando apenas com duzentos francos, quantia suficiente para pagar, se tanto, as despesas de poucas semanas.

Ohsawa logo tratou de alugar a água-furtada de uma típica casa francesa. Não havia janelas no pavimento, mas tão somente uma claraboia. Os caixotes usados para despachar seus livros do Japão para a Europa, Ohsawa os dispôs de modo que lhe servissem de mesa e estante. Sobre a mesa improvisada instalou o retrato da mãe, sua mais poderosa fonte de inspiração. Por toda a vida Ohsawa se recordaria do que lhe dissera ela no leito de morte: “Estude todas as coisas. Jamais se torne um especialista. Dedique sua vida ao bem-estar da nação e de toda a humanidade.” Talvez, neste novo e solitário ambiente, a memória da mãe lhe fosse ainda mais necessária. Ohsawa batizou o lugar de hamaguri (amêijoa), na tentativa de descrever os tons da luz repentina projetada pela claraboia por ocasião da aurora e do crepúsculo.

Já instalado, Ohsawa passou a considerar qual a melhor forma de alcançar seus objetivos. Viera à Europa não só para ensinar, mas também para aprender. Seu plano era confrontar a ciência ocidental com a tradição oriental representada pela Shoku-Yō, demonstrando a superioridade desta última. Na verdade, tencionava ele introduzir no Ocidente a essência da cultura japonesa, o Yamato-damashii, e as várias artes e disciplinas dela decorrentes. Mas desejava também estudar a fundo o Ocidente. Queria compreender de fato a ciência, a filosofia e a religião ocidentais, e sentir como o homem do Ocidente experimentava o mundo.

Dados os propósitos de Ohsawa, Paris apresentou-se-lhe como destino natural. Desempenhava a cidade à época o papel de capital cultural do Ocidente. Na arte e literatura, na ciência e medicina, a Cidade-Luz inspirava seus gênios nativos e atraía as principais personalidades estrangeiras. Franceses como Paul Valéry e André Malraux, e expatriados como Ernest Hemingway, Gertrude Stein e James Joyce elevaram-na à Meca dos escritores e poetas. Com grandes espíritos científicos reunidos, e por conta dos trabalhos desenvolvidos em lugares como o Instituto Pasteur, Paris era também centro de importantes pesquisas médico-científicas. E a cidade exercia ainda a função de eixo do poder político. Era o centro de um vasto (e ainda vital) império mundial, com colônias no sudeste da Ásia e por toda a África.

Além disso, Paris se tornara a sede de estudos sobre a cultura e história da Ásia, desenvolvidos por intelectuais e artistas. Importantes pesquisas acadêmicas desenrolavam-se já há algum tempo, com textos indianos e chineses estando disponíveis desde a primeira metade do século XIX.  Os idiomas e as escrituras do Budismo, a literatura e a ciência da China e, desde a queda da política de isolamento, a arte e a cultura do Japão vinham sendo rigorosa e sistematicamente examinados. A estética japonesa havia provocado um forte impacto no desenvolvimento da arte moderna na França. Na década de oitenta do século XIX, as primeiras xilogravuras importadas da Japão inspiraram o estilo cloisonné de Vicent van Gogh, e nos anos vinte do século passado, a pintura e outras artes japonesas ainda permaneciam em voga. Paris, portanto, era o lugar ideal para Ohsawa apresentar ao Ocidente a cultura oriental autêntica e, por outro lado, alcançar um entendimento profundo do Ocidente.

Os primeiros meses foram penosos para Ohsawa. Ele escrevia artigos sobre cultura japonesa e, cruzando a pé a cidade (para poupar algum níquel), oferecia-os a editores. Não havia, porém, quem os comprasse. A minguada quantia de que dispunha permitia-lhe comprar apenas uma mistura de painço e grãos triturados vendida como ração de pássaros em loja de produtos para animais. A essa mistura ele acrescentava verduras que colhia nos parques públicos. Aos sábados, deslocava-se para as cercanias em busca de vegetais selvagens e caracóis, uma iguaria para os franceses. E tudo era preparado num único bico de gás que instalara no seu hamaguri.

 Certa noite, a caminho de casa, Ohsawa percebeu nos fundos de um mercado uma pilha de produtos amassados e despedaçados que haviam sido varridos como lixo. Havia cenouras, folhas de beterraba, repolhos, etc. Ele se agachou e arrastou para dentro da valise os vegetais que nela couberam. De regresso a casa, cozinhou alguns para o jantar e pendurou os restantes numa corda dentro do quarto para desidratarem. Os fundos do mercado tornou-se-lhe, então, uma parada obrigatória durante o trajeto de volta a casa.

Um dia, rapazotes surgiram e puseram-se a encher um carrinho de mão com os vegetais lançados fora com o fito de alimentar seus coelhos. Ficaram chocados ao verem um distinto cavalheiro oriental apinhando sua pasta com folhas de rabanete. “Quantos coelhos o senhor tem em casa?”, perguntaram-lhe. Constrangido, Ohsawa respondeu: “Oh, apenas um, mas ele é enorme.” Tal expediente só atiçou a curiosidade dos rapazes, que rogaram a Ohsawa que os levasse para ver o prodígio. Com muita dificuldade conseguiu Ohsawa demovê-los da ideia.

NATURAL, PERO NO MUCHO


NATURAL, PERO NO MUCHO
Nem sempre o que o marketing vende corresponde à realidade;
saiba o que vai dentro dos cosméticos

                                                   Danae Stephan*

A
 indústria brasileira descobriu há alguns anos o poder que o apelo natural exerce sobre a venda de cosméticos. A busca por produtos menos agressivos ao organismo e ao ambiente é uma tendência mundial, e seria de se esperar que o Brasil, com sua biodiversidade, fizesse parte desse movimento. O problema é que, enquanto nos países desenvolvidos esse crescimento se dá por marcas certificadas, muitas orgânicas, por aqui o que mais se vê nas prateleiras são falsos naturais: têm rótulos apelativos, embalagens recicláveis, nomes sugestivos e até ingredientes da Amazônia. Já as fórmulas pouco diferem das convencionais.

             Mesmo que contenham os ativos descritos nas embalagens (os extratos de açaí, cupuaçu e pitanga são os da moda), isso não significa que eles sejam naturais. As concentrações de óleos essenciais e extratos naturais são normalmente muito baixas, e o restante da fórmula inclui corantes, conservantes e outros ingredientes que impossibilitam sua classificação como natural.

 Estudos alertam sobre a periculosidade de determinadas substâncias largamente usadas em cosméticos. Os mais polêmicos hoje são os parabenos, o triclosan e o lauril sulfato de sódio. O óleo mineral, derivado do petróleo, já esteve na berlinda, mas como as pesquisas nada concluíram, continua sendo usado em óleos de banho e hidratantes, inclusive infantis.

              O primeiro especialista a levantar os riscos dessas substâncias foi o médico Samuel Epstein, no livro Unreasonable Risk (inédito no Brasil). "Ele considera os parabenos, por exemplo, carcinogênicos escondidos. Ou seja, não provocam câncer, mas estimulam uma divisão celular anômala em indivíduos com predisposição a desenvolver a doença", diz a engenheira química especializada em cosmetologia Sonia Corazza.

               As pesquisas na área são esporádicas, e muitos componentes nunca foram estudados a fundo. Outros foram testados em animais, com resultados preocupantes, mas não em humanos. Outros estudos ainda relacionam certas substâncias ao câncer ou a má-formação fetal, mas se usados em doses muito maiores do que a encontrada em cosméticos.

                 Para fabricantes, isso prova a segurança dos produtos. Para os ativistas, a ciência está desconsiderando um fato importante: eles são usados diariamente, e em grandes quantidades. "Uma pessoa normal usa no mínimo dez cosméticos todos os dias", afirma o professor de cosmetologia Mauricio Pupo, formado pela PUC-Campinas. "Ninguém sabe ao certo o que essa exposição diária pode causar". Os cosméticos que ficam em contato com a pele são ainda mais preocupantes. "Depois de oito horas, 60% dos parabenos são absorvidos. Se o hidratante contiver ureia, essa absorção é potencializada", diz.
                Mesmo substâncias reconhecidamente seguras, como o dióxido de titânio (um filtro solar físico), não estão livres de problemas. "Ele é extremamente tóxico, mas, como é usado superficialmente, não representa perigo. Porém, com a nanotecnologia, ele é reduzido a um tamanho que permite sua absorção pela pele", diz Sonia Corazza. "Na dúvida, prefiro os feitos à base de óxido de zinco."

                  Na esteira das polêmicas, algumas marcas preferem não correr riscos. A recém-lançada Ada Tina é livre de parabenos e óleo mineral, não usa ingredientes sob suspeita pelos principais organismos internacionais e não compra matérias-primas testadas em animais. A linha para bebês Millebolleblu e a Prophyto, da Cosmética, também nasceram com um conceito semelhante. "Os três ingredientes mais reativos são os corantes, os conservantes e as fragrâncias, por isso usamos apenas corantes e aromas naturais, e a menor quantidade possível de conservantes", afirma a química Eliane Dornellas, da Cosmética.
Hoje, essa é também a posição da Natura, que até 2006 tinha todos esses ingredientes em suas fórmulas, inclusive nas maquiagens. "Se há controvérsia e existe um substituto viável, não esperamos um estudo definitivo e fazemos a substituição", diz Marcos Vaz, diretor de serviços técnicos.

ESTÁ TUDO NO RÓTULO
Veja quais são os ingredientes mais polêmicos presentes nas fórmulas, e por que evitá-los.

Parabenos - Conservantes usados em mais de 90% dos cosméticos.
São quatro os mais comuns: butil, etil, metil e propilparabeno. Além de serem altamente alergênicos, apresentam propriedades estrogênicas, ou seja, se comportam como um hormônio feminino. Estudos os associam ao aumento de câncer de mama.

Lauril sulfato de sódio - Principal componente de xampus, causa irritação na pele e tende a ser contaminado com 1,4-dioxane, um provável carcinogênico. Também aumenta a absorção de outras substâncias.

Triclosan - Bacteriostático usado em desodorantes, enxaguantes bucais e alguns sabonetes íntimos femininos. Está sendo apontado como um carcinogênico escondido. Ou seja, pode aumentar a probabilidade de uma pessoa pré-disposta desenvolver câncer.

Óleo mineral - A exposição a altos níveis de óleo mineral em indústrias está relacionada a doenças de pele como eczemas, acne e dermatite, além do desenvolvimento de cânceres no caso de exposição respiratória. Em cosméticos, são usados em concentrações muito menores, por isso são considerados seguros. Aumentam o risco de reações alérgicas.

Ureia - Um dos hidratantes mais utilizados em cosméticos, não é indicado para gestantes, porque atravessa a placenta.
Todos os produtos com concentração maior do que 3% do ativo devem conter um alerta às gestantes.

Diazolidinyl urea - Conservante usado em cremes e xampus doador de formol, substância potencialmente cancerígena.

QUEM É QUEM
Nem todo natural é orgânico, e nem todo orgânico é hipoalergênico. Conheça as diferenças

Naturais - São compostos basicamente por óleos essenciais e extratos naturais. Não podem ter conservantes artificiais, óleo mineral, parabenos ou qualquer substância sintética.

Orgânicos - Precisam ter o selo de uma certificadora. A Ecocert é bastante rigorosa e tem boa aceitação no exterior.
Para conseguir a certificação, os cosméticos têm que ter pelo menos 95% de ingredientes orgânicos.

Hipoalergênicos - É comum achar que cosméticos naturais provocam menos alergias, mas isso não é verdade. Entre as cerca de cem substâncias mais alergênicas e irritantes, várias são naturais. É o caso dos óleos de bergamota, citronela e coco e até da manteiga de cacau. Os hipoalergênicos passam por testes mais rigorosos e não contêm substâncias reconhecidamente alergênicas e irritantes, como os parabenos e o propilenoglicol.

 (*) Reportagem da Folha de São Paulo de 25 de outubro de 2008.