quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A BARAFUNDA YIN -YANG


A Barafunda Yin-Yang
                                                                  Carl Ferré


“Quando adotei a macrobiótica em 1975, manifestei predileção pelo trigo sarraceno. Alguém comentou que se tratava de um grão extremamente yang. Mas eu o ingeria todos os dias. Ele não era, absolutamente, muito yang para mim. Anos depois, Jacques de Langre confidenciou-me que o considerava extremamente yin, já que pertencia de fato à família de uma fruta, o ruibarbo.

“Opiniões divergentes como as anteriores ajudam a barafundear ainda mais os conceitos de yin e yang. Há quantidades diferentes de yin e yang em cada alimento, em cada órgão, em cada pessoa, em cada coisa, enfim. Alguns aspectos do trigo sarraceno são yang (pequenez, rijeza); outros são yin (pertencer à família do ruibarbo). O trigo sarraceno é considerado “yang” pelos que privilegiam seus aspectos yang, e “yin” pelos que privilegiam seus aspectos yin. Pode-se dizer o mesmo sobre os tomates, o sal, o açúcar e qualquer outro alimento.”


Três Mil Renascimentos



Três Mil Renascimentos
                                                                                                          Dick Smith





Sempre segui à risca os princípios macrobióticos. Mas Ohsawa, assim que me alcançava com os olhos, censurava-me: “Muito mau!” Com relação à minha esposa, porém, tudo era diferente. Mal ela chegava com um sorriso largo, abraçando-o e beijando-o, ele, perscrutando-lhe as mãos e os olhos, elogiava-a: “Muito bom!”. Não podia eu compreender este comportamento do sensei, pois sabia que minha esposa não era muito fiel à dieta.
           
Um dia, enchi-me de coragem e perguntei a Ohsawa o porquê de tratamentos tão distintos. Ele respondeu-me: “Ela é muito alegre e extrovertida; e isso é muito bom, independente do que ela coma. Pessoas muito sérias e severas em breve fracassarão, e de fato já fracassaram, se não se regozijam com a vida cada dia mais.”
           
Por ocasião de um seu aniversário, Ohsawa enviou-nos da Itália um cartão em que dizia: “Nasço e renasço três mil vezes a cada dia, pois, para mim, cada respiração é como se fosse um novo nascimento.”
           
Um dia, alguém comentou: “Esta vida não é importante, porque, quando morremos, atingimos planos mais elevados.” Ohsawa, ouvindo o comentário, ponderou: “A você é dado apenas um único corpo – cuide muito bem dele e usufrua cada momento de sua vida. Seja grato por cada respiração. Só assim você experimentará a verdadeira felicidade.”



quinta-feira, 20 de outubro de 2011

sábado, 15 de outubro de 2011

A Obsessão da Saúde Perfeita




A Obsessão da Saúde Perfeita
“O sistema médico cria incessantemente novas necessidades terapêuticas. Mas quanto maior a oferta de saúde, mais as pessoas creem que têm problemas, necessidades, doenças. Elas exigem que o progresso supere a velhice, a dor e a morte. Isso equivale à própria negação da condição humana.” 
Ivan Illich

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

O FEIJÃO NOSSO DE CADA DIA AGORA TRANSGÊNICO

O FEIJÃO NOSSO DE CADA DIA AGORA TRANSGÊNICO
                                                                     Denise Bloise*




         Na quinta-feira, 15 de setembro de 2011, a CTNBio – Comissão Técnica de Biossegurança – aprovou a produção e comercialização de sementes transgênicas de feijão carioquinha, desenvolvidas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa. A decisão contou com 15 votos favoráveis, duas abstenções (sendo uma do representante do Ministro Aloizio Mercadante) e cinco pedidos de diligência (solicitando mais estudos). Essa variedade de feijão transgênico é resistente ao vírus do mosaico dourado, que “ataca” as lavouras brasileiras.
         Várias questões devem ser consideradas. Nas últimas semanas circulou na internet um abaixo-assinado solicitando a liberação do feijão transgênico, subscrito pelos mesmos quinze membros da CTNBio que foram favoráveis à liberação.
         Na verificação dos efeitos sobre a saúde da variedade genética do feijão, não foram levados em conta estudos com mais de uma geração de animais, tampouco com animais prenhes.  Os estudos foram realizados com apenas três animais de uma única espécie. Perguntas do representante do Ministério da Saúde ficaram sem resposta, assim como questões levantadas em audiência pública anterior.
         Outro dado importante é que foram feitos 22 experimentos e apenas dois deram certos. Existe ainda a possibilidade de contaminação das demais variedades não transgênicas. O objetivo alegado de combater o mosaico dourado poderia ser facilmente resolvido através da aplicação dos princípios agroecológicos.
Segundo a Teoria da Trofobiose do francês Francis Chaboussou, a planta e o solo nutricionalmente equilibrados não são atacados por agentes exógenos e patógenos. Nasser Youssef Nars, agrônomo e ambientalista brasileiro, explorando a mesma vertente de pensamento, desenvolveu um princípio muito interessante que tem o mato como aliado. Ele costuma dizer que “Não existe praga, mas sim inseto com fome”.
Importante também considerar os estudos da pesquisadora e jornalista investigativa francesa Marie-Monique Robin a respeito dos alimentos geneticamente modificados. Segundo Robin, tais alimentos, que têm seus riscos omitidos, destroem culturas tradicionais e variedades genéticas, aumentam a padronização e a dependência tecnológica, e são a causa de preocupantes danos à saúde dos agricultores e consumidores.
Quanto à alegação de que tal tecnologia ajudará os agricultores familiares, o mínimo que podemos dizer é que é mentirosa. São justamente os pequenos agricultores - responsáveis, aliás, pela produção dos alimentos básicos que nos sustentam – que não têm condições de arcar com os custos financeiros da transgenia e da agroquímica.  Faz-se necessário mencionar a situação dos pequenos agricultores familiares na Índia, divulgada pela pesquisadora, física e ambientalista indiana Vandana Shiva, a qual protagoniza em seu país, junto com o movimento Navdanya, a luta contra os transgênicos e em defesa dos pequenos agricultores familiares. Vandana Shiva e Marie-Monique Robin apontam o quadro devastador causado pela atuação da Monsanto na Índia, com o seu “Cotton Bt”. Na região de Maharashtra, entre junho de 2005, quando o algodão transgênico Bt foi introduzido no Estado, e dezembro de 2006, 1.280 agricultores cometeram suicídio – uma média assustadora de um suicídio a cada oito horas. Relatam a tragédia desses pequenos agricultores indianos que, durante séculos, semearam seus campos e agora se veem às voltas com a compra de sementes, adubos e pesticidas; e por não conseguirem bancar esses custos, terminam em muitos casos ingerindo um frasco de Roundup.
O grupo pró-transgênico considera uma grande conquista o fato de ser essa semente do feijão carioquinha a primeira variedade geneticamente modificada produzida por instituições públicas brasileiras. A nosso ver, trata-se, nada mais nada menos, de que uma vergonha nacional: testes insuficientes, irregularidades nos procedimentos e conclusões inconclusivas.
 O Brasil vem apresentando um quadro acelerado de liberação de organismos geneticamente modificados, e uma variedade assustadora de transgênicos têm surgido. Resta uma pergunta – a quem isso interessa? Certamente, não aos pequenos agricultores, nem a nós consumidores.


*Denise Bloise é doutoranda em Ecologia Social  (UFRJ).