sábado, 4 de agosto de 2018

Levando a Gratidão à Mesa


Levando a Gratidão à Mesa
Lino Stanchich 












A
ntes de comer, deveríamos dar graças. Faz isso realmente diferença? Ora, como você se sente quando um amigo expressa amor e gratidão por você? Pois é exatamente assim que os alimentos reagem.

O alimento está vivo. É uma bênção do solo. Não é algo inerte, imutável, morto. Muito me entristece ver um alimento sendo desperdiçado ou desvalorizado. É como se um amigo do peito estivesse sendo rejeitado ou criticado sem razão.  A abundância tem seu lado negativo: fez que as pessoas perdessem o sentimento de reverência pelo alimento. A prática do jejum cria uma profunda consciência da bênção que o alimento é.

Fale com o alimento como se ele estivesse vivo, pois efetivamente ele está vivo! Fale em voz baixa ou em pensamento. Diga a sua refeição: “Por favor, venha para dentro do meu corpo. Cure-me, deixe-me com mais energia, deixe-me mais eufórico ou mais tranquilo; ajude-me a encontrar meu eixo.” Direcione a energia do alimento a fim de que ela possa suprir suas necessidades individuais.

Não tenha dúvida: o alimento é capaz de reconhecer sua gratidão. E reagirá a ela! Pense nos diferentes alimentos dispostos no prato como pequenos gênios ou espíritos que entrarão em seu corpo e farão maravilhas por você. Conscientize-se de quão afortunado você é por ter acesso aos alimentos. Expresse sua gratidão à Natureza, a Deus, ao Universo, a todas as pessoas que contribuíram para que o alimento chegasse até você, e especialmente ao próprio alimento.

Somente após ter dado graças é que você deveria começar a comer.

Sugestão de prece para antes das refeições

Obrigado, Universo, por dar-me a vida, por inspirar-me e orientar-me. Obrigado por meus pais, por meu cônjuge e amigos, com os quais compartilho a vida. Agradeço-lhe profundamente pelo alimento que estou prestes a ingerir. Agradeço a todos os que contribuíram para que ele chegasse à minha mesa, desde o camponês que fê-lo crescer até o responsável por transportá-lo. Agradeço especialmente ao cozinheiro que o preparou e há pouco mo serviu. Que este alimento entre no meu corpo e me torne mais saudável e feliz. Que ele, purificando meu corpo, me faça um ser humano melhor, mais consciente e capaz de tornar o mundo mais saudável, pacífico e feliz. Amém.


domingo, 17 de junho de 2018

Técnicas avançadas de mastigação


Técnicas avançadas de mastigação
Lino Stanchich


AO COMEÇAR A PRATICAR a mastigação consciente, você se confrontará com seus próprios hábitos. A tendência é engolir depois da vigésima mastigada. Quando isso acontecer, resista e pare conscientemente de mastigar por alguns segundos; então empurre o alimento para frente com a língua e recomece o processo. Ao chegar à marca de 50 a 80 mastigadas, você provavelmente terá produzido muita saliva, especialmente se abocanhou grande porção de alimento. Engula, mas da próxima vez leve à boca uma porção menor. Depois de mastigar 150 vezes, a maioria das pessoas percebe que pode continuar indefinidamente, porque os reflexos se tornam automáticos.

Para obter melhores resultados, aplique à mastigação um movimento espirálico. No começo isso pode parecer estranho, já que a maioria das pessoas mastiga imprimindo à mandíbula um movimento meramente ascendente e descendente. Você pode treinar a mastigação em espiral conduzindo o alimento com a língua ora para o lado direito ora para o lado esquerdo da boca.

Uma técnica adicional que tenho julgado poderosa consiste em manter os olhos semicerrados ou cerrados enquanto repito alguma frase mentalmente. Eu visualizo o que gostaria que se concretizasse em minha vida. Esta técnica registra a frase no meu inconsciente, contribuindo para que meus sonhos e desejos se tornem realidade.

Às vezes tenho a sensação de estar mastigando com o corpo inteiro1, e sinto um calor benéfico se propagar por todos os órgãos e sistemas. É então que experimento o instante supremo do ato de comer. Isso costuma acontecer quando alcanço a marca de 200 mastigadas. Tal experiência é mais bem descrita como uma extraordinária sensação de bem-estar e júbilo acompanhada por uma espécie de vibração que ganha o corpo todo e o deixa inebriado. Depois de experimentar tal sensação, você pode muito bem tornar-se um “viciado” na mastigação consciente simplesmente por causa do revigoramento que ela proporciona. Àquela sensação chamo “Potência Entusiástica do Corpo”.

A Potência Entusiástica do Corpo se manifesta também em outras situações. Os amantes, por exemplo, são tomados por esta energia quando estão próximos um do outro. Outros se deixam invadir pelo mesmo sentimento quando estão cantando, dançando, atuando. E você experimentará a mesma sensação em breve, ao praticar a mastigação consciente.

Depois de uma refeição, deveríamos sentir-nos energizados, alegres, enlevados, como se flutuássemos no ar, e agradecidos por tudo o que nos foi dado, especialmente o alimento que acabamos de desfrutar. Estou convencido de que mastigar aumenta a presença da endorfina no cérebro e no corpo. O otimismo passa a nos governar. É como se estivéssemos apaixonados ou profundamente inspirados. Mastigar é um exercício que nos incute um respeito profundo por nosso corpo e por toda a Natureza.

Que velocidade imprimir à mastigação?



Se estou comendo sozinho, mastigo muito bem. Posso comer ainda melhor na companhia de bons mastigadores. Se, por outro lado, como ao lado de pessoas que não querem ou não podem mastigar muito, isso me afeta consideravelmente. Não há como negar que somos influenciados tanto pelo ambiente quanto pelos indivíduos que nos cercam. Com o objetivo de extrair o máximo do seu alimento, escolha um lugar que inspire paz e companhias que o estimulem a mastigar.

Durante toda a minha vida, minhas glândulas têm estado hiperativas. Se você comer em minha companhia, perceberá que, embora eu mastigue mais do que a maioria das pessoas, frequentemente sou o primeiro a terminar. Tal aparente contradição deve-se ao ritmo acelerado com que mastigo meu alimento2. Tenho consciência disso e tento reduzir a velocidade, pois, quanto mais rápido mastigamos, mais hiperativos nos tornamos. A boa notícia é que podemos mudar nossos padrões energéticos mudando a velocidade de nossa mastigação.

Se você é moroso ou se sente prostrado, e se deseja revitalizar seu metabolismo, acelere conscientemente seu ritmo de mastigação. Caso queira tornar-se mais sereno ou desacelerar seu metabolismo, reduza propositadamente a velocidade de sua mastigação. Você pode compor o ambiente com música de fundo e iluminação. Luzes brilhantes e música animada tendem a aumentar a velocidade da mastigação, ao passo que luzes brandas e música suave tendem a criar um ritmo mais tranquilo de mastigação.

Lembre-se: a velocidade que você imprime à mastigação afeta seu corpo inteiro. Mastigue com consciência. Defina o padrão de sua mastigação de acordo com suas necessidades, tendo sempre em mente o quão importante é mastigar bem seu alimento. Reconheço que a disciplina de mastigar exige grande paciência. Uma vez, porém, comprovados seus miraculosos resultados, convencidos ficamos de que vale o esforço.

Notas:
1. Cumpre referir aqui um inestimável ensinamento de Tomio Kikuchi: “Não são apenas os dentes que mastigam: é o corpo inteiro que o faz.” Para que os alimentos sejam assimilados completamente, é mister deixar de lado o sedentarismo e movimentar o corpo diariamente. Portanto, essa sensação a que o autor faz menção (“de estar mastigando com o corpo inteiro”) só encontra paralelo no mundo real se o indivíduo incorporar à sua rotina diária uma atividade física que proporcione a combustão completa dos alimentos.

2. Ainda segundo Tomio Kikuchi, a mastigação consciente deve considerar a seguinte relação entre o volume de cada bocado e a velocidade com que é mastigado: o volume ideal corresponde a 9g de arroz integral cozido (o que equivale, mais ou menos, a 140 grãos), e a velocidade ideal corresponde a 140 movimentos por minuto. Este é o padrão, do qual é prudente não se afastar muito se o objetivo é valer-se dos benefícios da mastigação. O aspirante a mastigador ideal pode no início treinar com a ajuda de um relógio. Mas logo prescindirá do instrumento, pois o bom hábito se interiorizará como uma segunda natureza.