sexta-feira, 29 de julho de 2016

O Microbioma Humano


O Microbioma Humano
                                                                                                                                                                  Denise Carreiro



O microbioma humano, embora não seja uma estrutura distinta na sua forma, como um coração ou um fígado, é um sistema que - assim como o sistema imunológico, que conta com células de defesa em todo o organismo - está presente em todo o corpo humano. 

Os seres humanos hospedam um superorganismo composto por inúmeros grupos de bactérias que trabalham na saúde e na doença, em simbiose com as nossas células e com o meio ambiente. Para cada célula do corpo existem dez bactérias. 
Conhecidos há vários séculos, estes micro-organismos foram primeiramente reconhecidos como invasores, que deveriam ser evitados e eliminados. A partir deste conceito, os alimentos passaram por processos que os eliminavam, e a medicina direcionou seus esforços em pesquisas para criar drogas cada vez mais agressivas para eliminação das bactérias, mesmo que para isso as boas bactérias também sucumbissem.

Sem dúvida alguma, em um período onde as doenças infecciosas respondiam por grande parte das mortes, a adoção de drogas antibióticas representou um avanço considerável para preservação da espécie humana.

Entretanto deixamos de dar a devida importância às funções e interações que este microbioma exerce para mantermos um estado de saúde adequado utilizando nossas defesas naturais que nos protegem das doenças. 

Acho a denominação microbioma humano muito adequada, pois, de uma forma análoga, o nosso o planeta também sofreu profundas degradações devido a decisões erradas sobre assuntos que ainda não estavam completamente compreendidos pela ciência. A revolução industrial permitiu que houvesse uma devastação generalizada dos nossos recursos naturais, cujos efeitos só hoje podemos avaliar. Em paralelo, nosso organismo também tem sofrido agressões que se manifestam em números epidêmicos de doenças crônicas não transmissíveis. 

Assim como os problemas ambientais, estas doenças têm desafiado a ciência para que haja um resgate e um reconhecimento maior dos fundamentos que fazem nosso organismo se manter em harmonia e com a saúde. Assim como a natureza, nosso organismo não sofreu modificações, o que mudou foi a forma como ele está sendo tratado, e a alimentação tem sido o principal vetor destas mudanças.


A preservação e sustentabilidade deste microbioma dependem da forma como tratamos nosso corpo. Quanto mais conhecermos este universo que trabalha dentro de nós, maior teremos cuidado em preservá-lo. Esperamos que no futuro exista um maior reconhecimento dos danos que a nossa matriz alimentar está provocando neste sistema; e que os tratamentos sejam menos agressivos e supressores, mais moduladores e reconstrutores, pois só assim poderemos recuperar o controle da nossa saúde.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

O Segredo da Longevidade

O Segredo da Longevidade
Dr. Antônio da Silva Mello






PARA VIVER MUITO TEMPO, O ESSENCIAL É NÃO MORRER. E por isso, pode cada um atribuir sua longevidade à causa que melhor lhe parecer. Romilius Pollion, o centenário romano, acreditou que sua vitalidade proviesse de fricções oleosas e do pão molhado no vinho, quase sua única alimentação. Há informações de que foi a vida ascética, cheia de privações, que levou Santo Antão aos 105 anos, seu companheiro Macário aos 110 e o eremita Paulo aos 113 anos de idade. Gladstone, morto aos 89 anos, atribuía sua longevidade sadia ao fato de bem mastigar os alimentos; Bismarck, ao seu banho frio diário; Tennyson, ao seu bom humor; Moltke e Lesseps, aos exercícios físicos; Loew, aos preparados de cálcio, que usou durante anos; Roemheld, à ginástica respiratória. E, ao lado deles, Edison, para quem sua capacidade inventiva tinha 2 por cento de gênio e 98 de suor, chegando a trabalhar até 20 horas por dia e dormindo sempre pouco, em geral apenas 2 a 3 horas por noite, atribuía à atividade o segredo de sua vida, do seu sucesso e da sua velhice, que atingiu os 82 anos.  Heisler refere ter encontrado na Suécia um velho de 94 anos extraordinariamente bem conservado, ágil, sadio, apesar de ter sempre trabalhado ativamente, o qual atribuía sua verde velhice ao fato de comer arenques salgados com frequência.

Referências desse gênero são numerosas, acreditando quase sempre cada longevo ter encontrado a fórmula graças à qual conseguiu alcançar idade avançada. Até o abuso do cachimbo, o uso imoderado do álcool e o repouso excessivo na cama têm sido considerados por alguns como fatores de sua grande velhice! Mas tudo isso é concluído a posteriori, no final da experiência, quando não é mais possível verificar o que foi útil ou prejudicial. A frequência dos centenários na Bulgária, tal como tem sido inúmera vezes citado, é impressionante. Em 1920, numa população de 4 milhões de habitantes, havia aí 3.800 centenários, enquanto a Alemanha, com uma população de mais de 60 milhões, possuía, na mesma época, apenas 200. Pois bem, na Bulgária, são os pastores, que no verão dormem ao livre e vivem sobretudo de leite, de coalhadas, de queijo e de alguma verdura, sendo em geral magros ou até desnutridos, que fornecem a grande proporção de centenários, razão pela qual Metchnikoff e outros sábios procuraram na alimentação e principalmente em sua influência sobre a flora intestinal a explicação para tão avançadas velhices.

Particularmente interessante é o fato das restrições alimentares parecerem ter influência sobre a extensão da vida, no sentido de uma deficiência de alimentação ser mais favorável que a abastança e o excesso. Kuczynski, em observações feitas em camponeses russos, verificou que a fome quando não mata também não prejudica e até prolonga a vida: “Das karge Leben bekommt prachtvoll”! É o que, aliás, tem sido observado em todas as regiões do globo, onde com frequência são encontrados macróbios que, por assim dizer, vivem à mercê das eventualidades, ao embate das dificuldades e vicissitudes da vida. Muitos deles a ganham até à custa de intenso trabalho, passando às vezes grandes privações, embora vivendo com saúde e não raro sendo até fecundos na procriação. Um inquérito feito entre os centenários de Wurtenberg, na Alemanha, mostrou não haver entre eles um só vegetariano e que sua maioria tivera, em vez de contorto e abundância, antes vidas de lutas e dificuldades. Um caso muito célebre, talvez mais pelo fato de sua autópsia ter sido feita por Harvey, é o de Thomas Parr, um podre aldeão de Shropshire, que até aos 130 anos se entregou a trabalhos pesados, morrendo em Londres com quase 153 anos. Idêntico é o caso de Drakenberg, na Suécia, que viveu de 1626 até 1772, portanto 146 anos. Drakenberg foi marinheiro até a idade de 91 anos, tendo passado 15 anos em cativeiro em mãos de corsários africanos.

Informações dessa natureza são encontradas em numerosas publicações, sempre acordes em mostrar que a vida pobre, mesmo de penúria e restrições, é mais favorável para garantir a longevidade do que a passada em conforto e abundância.


Pão cortado a machado

Pão cortado a machado
Dr. Antônio da Silva Mello



A consistência do pão e o seu preparo com cereais completos parecem ser fatores decisivos para a boa conservação de nossos dentes. E isso principalmente devido à dureza desse alimento que, em tempos antigos, só era fabricado a longos intervalos, tornando-se de tal consistência que precisava ser cortado a machado ou por meio de sabres resistentes e afiados. É isso que vem relatado frequentemente na literatura e que tem até servido para pôr em evidência quanto um trabalho de mastigação intensa deve ter contribuído para a boa conservação dos dentes de nossos antepassados.

sábado, 28 de maio de 2016

Raiz de lótus seca, um alívio portátil

Raiz de lótus seca, um alívio portátil
Jan Zaitlin



P
ratico macrobiótica há mais de vinte anos, e continuo me surpreendendo com o muito que ainda temos de aprender sobre a energética dos alimentos. Meu propósito neste artigo é contar-lhes como descobri o poder da raiz de lótus seca.

Certa vez, durante um voo de São Francisco à Costa Leste, sem motivo aparente, meus olhos começaram a lacrimejar e meu nariz a escorrer. Socorri-me em vão de montanhas de lenços e guardanapos, pois as eliminações corriam sem trégua. Percebi que o passageiro ao meu lado, com toda a razão, ficou extremamente incomodado.

Minutos depois, tive a plena consciência de que todo aquele contratempo não era senão o resultado da ingestão descontrolada de alimentos yin na noite anterior.

Tentei pressionar alguns pontos de shiatsu, mas não obtive melhora. Lembrei-me então de que, ao me preparar para a viagem, havia jogado algumas fatias de lótus seca na minha bagagem de mão. É que a amiga que me acomodaria, sofrendo de terríveis hemorroidas, ligou-me desesperada pedindo que eu levasse algo para aliviar suas dores. Consultei o volume Macrobiotic Path to Total Health e separei um bom punhado de raiz de lótus seca. Sem ter muito com que contar, lancei à boca cerca de uma colher de chá daqueles pedaços da lótus seca. Pus-me a mastigá-los muito bem, e em poucos minutos todos os meus sintomas tinham desaparecido. Foi como se uma esponja tivesse absorvido todo o líquido que saía de meus olhos e de meu nariz. Desnecessário dizer que, depois dessa experiência, as fatias de raiz de lótus seca tornaram-se um de meus suprimentos de viagem mais importantes.

A melhor parte da história, entretanto, começou quando cheguei ao apartamento de minha amiga. Logo após levar as malas para o quarto de hóspedes, dirigi-me à cozinha a fim de preparar-lhe uma beberagem com a raiz de lótus seca, umeboshi e araruta. Na manhã seguinte, minha amiga experimentou um alívio significativo de sua embaraçosa e desconfortável aflição. Dei-lhe o restante da raiz de lótus, e ela prometeu reduzir o consumo de frutas e aumentar o de grãos integrais e vegetais.

Tenho constatado que a raiz de lótus seca também é eficaz em outras situações. Na primavera passada, eu passeava com outra amiga quando ela me contou que sofria de febre do feno. Participou-me que o incômodo era tão grande, que interferia até mesmo em seu trabalho. Ela não conseguia parar de espirrar; e as lágrimas que fluíam desmedidamente de seus olhos impediam-na de se concentrar.  Dei-lhe algumas fatias de raiz de lótus seca e disse-lhe que, ao avizinhar-se uma crise, ou fizesse com elas um chá ou simplesmente as mastigasse o mais possível. Dias depois, ela ligou perguntando: “Que espécie de substância é essa, e onde posso adquiri-la?” A lótus melhorou sua qualidade de vida.

Uma terceira amiga relata-me que mastigar lótus antes de dormir a tem ajudado em seus episódios de ansiedade, acalmando-a o suficiente para cair no sono.

A raiz de lótus seca também vem a calhar quando ingerimos um pouco mais de yin em quaisquer restaurantes. Recentemente eu e um amigo saímos para experimentar um prato indiano. Reparei que depois do jantar, no caminho de volta, estávamos ambos com a garganta “arranhando”. Sugeri que mastigássemos uma pequena fatia de lótus seca. O efeito foi tão impressionante, que meu amigo julgou tratar-se de um truque de mágica.

Tudo indica que a raiz de lótus fresca é ao menos tão eficaz quanto sua versão desidratada. Contudo, é muito mais fácil manter a raiz de lótus seca na dispensa ou na bolsa. Seu prazo de validade é bastante longo. Embora seja muito melhor evitar escolhas alimentares que provocam desequilíbrio, o fato é que a vida acontece...

É por isso que hoje, em meu estojo macrô de primeiros-socorros, a raiz de lótus seca não pode jamais faltar.


Chá de Raiz de Lótus

Chá de Raiz de Lótus


E
ste chá é útil para aliviar congestão pulmonar, eliminar complicações nos seios nasais e curar a tosse crônica.

Geralmente, usa-se sal marinho para temperar esta bebida. Desde que o propósito é expulsar ou neutralizar o excesso de proteína, não se deve usar shoyu, pois o molho de soja contém proteína. Além disso, com sal marinho o chá torna-se mais doce.

Este chá é mais eficaz quando preparado com a raiz de lótus fresca. Entretanto, se a raiz fresca não estiver disponível, use a raiz de lótus seca ou o pó da raiz.

Chá com a raiz de lótus fresca:

1-    Lave e rale a quantidade suficiente de raiz para encher meia xícara de chá. Com a ajuda de um pano de algodão, esprema a poupa com o objetivo de extrair-lhe o sumo. (A polpa restante deve ser reservada e adicionada em outros pratos.)
2-    Verta o sumo numa caçarola com igual quantidade de água. Adicione uma pitada de sal marinho.
3-    Leve para ferver e deixe cozinhando em fogo brando por 2 ou 3 minutos. Beba este chá, que deve ficar grosso e cremoso, ainda quente. Podem-se adicionar algumas gotas de sumo de gengibre ralado ao final do cozimento se sua condição lho permitir.

Chá com a raiz de lótus seca:

1-    Coloque cerca de 10 gramas de raiz de lótus seca em 1 xícara de água. Deixe-a permanecer ali durante alguns minutos até amolecer. Corte-a em pequenos pedaços e amasse-os num suribachi.
2-    Retorne a raiz cortada em pequenos pedaços à água em que ficou de molho. Adicione uma pitada de sal marinho.
3-    Leve à fervura e deixe cozinhar em fogo brando por aproximadamente 15 minutos.



sábado, 30 de abril de 2016

União de Contrários ou A Vitória da Poesia Japonesa

União de Contrários
ou
A Vitória da Poesia Japonesa
Carlos Drummond de Andrade




No velho número de um jornal pacifista francês, encontrado por acaso, vem a história do casamento do general Von Falkenhausen com a ilustre desconhecida Cécile Vent. Dá-se que esse típico oficial prussiano foi gauleiter1 da Bélgica durante a ocupação nazista, assim como um seu parente mais velho exercera o governo militar do mesmo país, na Primeira Guerra Mundial. A essa família de militares alemães coube, pois, o privilégio de fornecer dois algozes ao povo belga, no espaço de 25 anos. Se o primeiro foi mais cruel do que o segundo, também este não se revelou bonequinho de açúcar-cande, pois, terminada a guerra, os belgas reclamaram o direito de julgá-lo, e o condenaram a doze anos de prisão.

Em 1947, estava o general em sua cela, posto em triste sossego; o tempo escorria mole, ou nem isso; depois da longa vibração de uma vida que conhecera a guerra nos Dardanelos2 e na China, a pasmaceira, o tédio, o voo de um mosquito observado como um acontecimento. Não, o general não era homem para viver sem ordenar o fuzilamento de ninguém e finava-se de desgosto. O diretor da penitenciária alarmou-se; não queria cadáveres no estabelecimento. Chamou a representante do serviço de assistência às prisões e pediu-lhe que socorresse o pobre. Ela fincou o pé: não e não. Era uma antiga “resistente”, lembrava-se bem das torturas infligidas pelos invasores a seus compatriotas; ela própria conhecera a prisão.

A consciência profissional, entretanto, venceu-a. Cécile foi visitar o general, impressionou-se com sua seriedade e cortesia; verificou que ambos amavam a poesia japonesa, essa poesia alusiva e discreta por excelência; e falaram e falaram de rebus pluribus3. Ele pediu-lhe que voltasse; ela atendeu. Finalmente, ele foi libertado; ela o esperava numa cidade do Palatinado4 onde se casaram, tantos anos depois de se terem conhecido: Von Falkenhausen, aos 82; Cécile, aos 54.

O povo torceu o nariz a esse matrimônio do céu e do inferno, protestando: uma belga que se dá ao respeito, mormente se tem uma ficha heroica, não pode desposar um general alemão. É a vítima abraçada ao verdugo, a ovelha ao lobo, Cristo a Satanás, e outras comparações deste gênero, que o sentimento patriótico irritado inspira à alma popular e até à gente mais esclarecida. O fato é que os dois estão casados e bem unidos. O general (que se envolvera no golpe frustrado contra Hitler) não era a onça que Cécile e seus patrícios imaginavam, ou tinha deixado de sê-lo, por artes do tempo e de Cécile; até na casamata5 psíquica de um general alemão pode medrar a florzinha do sentimento humano.

O jornal caçoa um pouco desse par de velhos namorados, mas admite na decisão de Cécile uma nobreza que faltou ao cientista alemão Von Braun, inventor das bombas V-1 e V-2, lançadas contra Londres, e que passou a construir mísseis para os americanos; ou ainda aos espiões americanos William Martin e Bernon Mitchell, que atravessaram a Cortina de Ferro e passaram a servir à URSS. Com seu idílio crepuscular, ela superou divisões políticas e rancores nacionais, para além das condições históricas. O próprio general tem seu mérito: ao casar-se com uma belga resistente, de certo modo limpou-se de antigas faltas. Pequena vitória da humanidade sobre a barbárie, diz o comentarista. E vitória um pouco também – acrescento – da poesia japonesa.

Notas:

1. Chefe de um distrito na Alemanha nacional-socialista e nos territórios ocupados pelo Reich.

2. Estreito no noroeste da Turquia ligando o mar Egeu ao mar de Mármara.

3. Expressão latina que significa “muitas coisas”.

4. A Renânia-Palatinado é um dos 16 estados da Alemanha, situado no sudoeste do país. A capital é Mainz. 

5. Abrigo subterrâneo à prova de bombardeios, dentro de um forte, para alojar tropas e estocar munição.





Compartilhar é a melhor dieta

Compartilhar é a melhor dieta
Ronald Koetzsch*

“É melhor abrir mão de uma dieta do que de um amigo.”
Herman Aihara



Passei um mês na Rússia, lecionando na Universidade de Estadual de Moscou. Num fim de semana, Martha (minha parceira no ensino) e eu fomos visitar São Petersburgo, com vários estudantes russos. Chegamos mais ou menos às 23 horas. Os anfitriões, um estudante com cara de menino e sua mulher, tinham preparado um banquete russo para nós. Havia borscht, grossas fatias de pão preto e vodca. Quando sentamos à mesa passava muito da meia-noite.

Eu estava cansado e sem muita fome. Lembrei que comer tarde geralmente me deixa letárgico e mal-humorado na manhã seguinte. Como os monges budistas, que não comem depois do meio-dia, prefiro ir para cama com o estômago vazio.

Expliquei delicadamente que não me sentia bem e que ia tomar apenas um pouco d’água e suco de maçã. Minha anfitriã disse: “Se não se sente bem, deve comer. Sim. Sim. Coma para ter saúde.”

Mas preferi a abstinência com uma leve sensação de virtude. Enquanto todos, incluindo Martha, comiam e bebiam alegremente, tomei devagar o suco de maçã com água e esperei o momento adequado para pedir licença e ir para cama. Depois de uma hora mais ou menos, despedi-me; mas eles continuaram a comer e a beber por muito tempo ainda. Um dos meus últimos pensamentos antes de adormecer foi: “Bem, eu pelo menos estarei com a mente clara e cheio de energia amanhã para visitar a cidade.”

Infelizmente não foi o que aconteceu. Eu estava atordoado e me sentindo mal, sentia-me alienado dos outros. E eles, a despeito de terem ido para cama cheios de vodca e de comida, estavam alegres e cheios de energia.

Fiquei um pouco desalentado com a injustiça...

Logo depois da minha estada na Rússia, fui à Alemanha visitar amigos em um pequeno povoado perto de Kassel, e nos reunimos para o café da manhã que marcava o fim dos feriados locais. A refeição foi servida em uma sala enorme. No meio havia uma banda alemã, com trinta figurantes, tocando música a todo vapor. Centenas de homens vestidos com ternos escuros e camisas com babados estavam sentados a longas mesas, tomando cerveja, conversando, rindo e ocasionalmente cantando.

Assim que me sentei, uma enorme caneca de cerveja foi posta à minha frente, e meus vizinhos de mesa – corados e sorridentes – ergueram suas canecas num brinde... Não parecia ser a hora mais adequada de pedir chá de hortelã... Tomei um pequeno gole da cerveja. Era espessa e deliciosa. Tomei outro e comecei a conversar com o homem que estava ao meu lado, um policial da cidade. Quando terminei a cerveja, outra caneca cheia apareceu à minha frente...

Finalmente foi servido o café da manhã. Consistia em costeletas de porco bem fritas, do tamanho de um disco de Frisbee. Para quem comia pouca carne e nenhuma de porco há duas décadas, aquilo parecia “a mãe de todas as costeletas”... O que eu ia fazer? Pedir a uma das lindas jovens loiras que nos serviam um sanduíche de hummus  e broto de alfafa? Comi com prazer a costeleta, uma salada de batatas e tudo o mais que havia no prato. Estava delicioso.

Quando levantamos para ir embora, eu estava calmo e alerta. E tive um pressentimento. Pensei: quando chegará o castigo para meus pecados contra a dieta? Mas ele jamais chegou. Senti-me como nunca, cheio de energia e ebuliente o dia todo, e durante muitos dias depois...

A conclusão a que cheguei é que o alimento é abençoado quando compartilhado e consumido junto com conversas, risos e músicas.


*Ronald Koetzsch é o mítico autor de George Ohsawa and the Japanese Religious Tradition.  Seu pendor para biografias fê-lo escrever outro ícone do gênero: Rudolf Steiner: Life, Worldview and Legacy.