sábado, 29 de novembro de 2014

Só o corpo tem a capacidade de curar-se

Só o corpo tem a capacidade de curar-se
Dr. Hiromi Shinya*




Q
uando a Segunda Guerra terminou, eu era adolescente e assisti à transformação que a tecnologia norte-americana promoveu em minha terra natal. Meu sonho era estudar medicina na América. Em 1963, concluí meu curso de medicina no Japão e mudei-me para os Estados Unidos com minha jovem esposa para iniciar meu curso de residência médica no Beth Israel Medical Center de Nova York.

Vindo de um país estrangeiro, ao chegar aos Estados Unidos compreendi que teria de trabalhar muito para ser um cirurgião respeitado naquele país. Quando criança eu estudara artes marciais e graças a esse treinamento aprendi a usar muito bem as duas mãos. A ambidestria me possibilitou realizar cirurgias com rara eficiência.

Durante o curso de residência fui assistente do dr. Leon Ginsburg, um dos descobridores (juntamente com o dr. Burrill Bernard Crohn e o dr. Gordon Oppenheimer) da doença de Crohn. Um dia o chefe dos residentes e o residente mais antigo que normalmente assistiam o dr. Ginsburg não puderam ajudar na sala de cirurgia, e a enfermeira do dr. Ginsburg, que já conhecia meu trabalho, recomendou-me. Sendo ambidestro, terminei a cirurgia rapidamente. Primeiro, o dr. Ginsburg ficou muito irritado porque não acreditou que eu pudesse ter terminado em tão pouco tempo e ter feito tudo certo. Mas, ao verificar que o paciente tinha se recuperado tão bem sem a hemorragia excessiva e sem o inchaço que costumam ocorrer depois de uma cirurgia longa, ele ficou impressionado. Comecei a trabalhar com ele regularmente.

Nem minha esposa, nem eu, nem nossa filhinha nos dávamos bem nos Estados Unidos. Minha esposa passava a maior parte do tempo doente. Fraca, ela não conseguia amamentar, e nossa filha era alimentada com leite de vaca. Eu trabalhava o dia todo no hospital e, quando chegava em casa, ajudava minha esposa que estava novamente grávida. Eu trocava fraldas e dava mamadeiras à minha filha, mas a pequena chorava muito porque tinha uma urticária muito intensa. Ela coçava-se muito e estava num estado lastimável.

Aí, então, nasceu meu filho. Sua chegada foi uma alegria, mas logo surgiu uma hemorragia retal. Naquela época, eu tinha adquirido o primeiro colonoscópio e examinei meu filhinho. Encontrei uma inflamação no cólon e uma colite ulcerativa. Fiquei arrasado. Ali estava eu, um médico que não conseguia curar sua jovem e bonita esposa nem aliviar o sofrimento de seus filhos. Eu não aprendera nada na faculdade de medicina que pudesse explicar a causa da doença deles. Consultei outros médicos, os melhores que eu conhecia, mas nenhum conseguia me ajudar. Ser um bom cirurgião ou dar remédios para os sintomas não era o suficiente. Eu queria saber o que causava a doença

No Japão, eu nunca tinha visto o tipo de dermatite atrófica que minha filha tinha, por isso, comecei a investigar o que havia nos Estados Unidos que pudesse causar esses sintomas. No Japão nós não tínhamos muitos derivados do leite; portanto, pensei que pudesse ser o leite de vaca que ela mamava. Quando retiramos o leite, ela melhorou rapidamente e eu percebi que ela era alérgica a leite de vaca. Ela não conseguia digeri-lo, e as partículas não digeridas, que eram pequenas o suficiente para passar do intestino para o sangue, eram atacadas pelo seu sistema imunológico como se fossem invasores. A mesma coisa acontecia com meu filho. Quando paramos de alimentá-lo com leite, a colite desapareceu.

A doença de minha esposa logo foi diagnosticada como lúpus. Os valores de seu hemograma caíam, e ela ficava pálida e anêmica. Ela entrava e saía do hospital enquanto lutávamos para salvar-lhe a vida. Morreu antes que eu soubesse o suficiente para ajudá-la.

Até hoje, eu ainda não sei o que causou o seu lúpus, mas sei que ela era geneticamente predisposta a reações exageradas do sistema imunológico. Ela foi interna de uma escola-convento ocidentalizada no Japão e consumia muito leite. Não há dúvidas de que era alérgica a leite, pois mais tarde seus dois filhos também se mostraram alérgicos aos laticínios. Exposta continuamente a um alimento que gerava uma reação alérgica, seu sistema imunológico deve ter se esgotado, deixando-a suscetível à doença autoimune do lúpus.

Com essas experiências, comecei a compreender o quanto a alimentação é importante para nossa saúde. Isso foi há mais de cinquenta anos, e depois disso registrei a história alimentar e examinei o estômago e o cólon de mais de 300 mil pacientes. Passei minha vida tentando compreender o organismo humano, a saúde e a doença. Comecei pela doença – suas causas e tratamentos –, mas, assim que comecei a compreender melhor o trabalho do corpo como um todo, mudei minha maneira de tratar as doenças.

Vi que nós, médicos, e nossos pacientes devemos empregar mais tempo na compreensão da saúde do que na luta com a doença.

Nascemos com o direito à saúde; é natural ser saudável. Depois de começar a compreender a saúde, fui capaz de trabalhar com o corpo, ajudando-o a livrar-se sozinho da doença. Apenas o corpo tem a capacidade de curar-se. Como médico, crio um meio para que a cura aconteça.

Assim, comecei tentando compreender a doença, mas minha pesquisa acabou me levando para o que eu acreditava ser a chave da saúde. Essa chave é a enzima milagrosa do nosso próprio organismo.

O organismo humano tem mais de 5 mil enzimas que geram, talvez, 25 mil reações diferentes. Pode-se dizer que toda ação do organismo é controlada por enzimas; porém, sabemos muito pouco sobre elas. Acredito que criamos essas enzimas a partir de uma enzima-fonte, que é mais ou menos finita em nosso corpo. Se essas enzimas-fonte se esgotarem, não haverá um número suficiente delas para reparar as células de maneira adequada, o que, com o tempo, possibilitará o desenvolvimento de câncer e outras doenças degenerativas.

Em suma, esse é o fator enzimático.

Quando ajudo meus pacientes com câncer de cólon a se curarem, primeiramente removo o câncer e depois os coloco em uma dieta rígida de alimentos não tóxicos e ricos em enzimas e água, para que eles tenham mais enzimas-fonte para reparar as células do organismo. Não acredito no uso de medicamentos fortes que desafiam o sistema imunológico, pois acho que o câncer de cólon não acontece por acidente, de maneira isolada. O câncer de cólon é um alerta de que todo o suprimento de enzima-fonte está se esgotando.

Ao mesmo tempo que acredito que nascemos com um suprimento limitado dessa enzima-fonte e que não devemos gastá-lo com má alimentação, toxinas, eliminação deficiente e estresse, compreendi outra coisa. Essa outra coisa é o motivo pelo qual chamo essa enzima-fonte de enzima “milagrosa”. Tenho testemunhado várias curas espontâneas e remissões de todos os tipos de doença. Ao estudar essas curas, comecei a compreender como esses milagres acontecem.

Descobrimos o DNA, mas não sabemos realmente muita coisa sobre ele. Há um enorme potencial latente em nosso DNA que ainda não compreendemos. Minha pesquisa indica que explosões emocionais positivas, como as que surgem do amor, da risada, e da alegria, podem estimular nosso DNA a produzir uma enxurrada de enzimas-fonte – a enzima milagrosa que age como  biocatalizador da recuperação das células. Alegria e amor podem acordar um potencial muito além do conhecimento humano atual.

Neste livro, direi a você o que fazer no dia a dia, o que comer e que suplementos e enzimas tomar para ajudar suas enzimas milagrosas e sua saúde. Entretanto, a coisa mais importante que posso lhe dizer para viver uma vida longa e saudável é fazer o que o deixa feliz (mesmo que isso signifique não seguir, às vezes, minhas outras recomendações).

Ouça música. Faça amor. Divirta-se. Curta os pequenos prazeres. Viva a vida com paixão. Lembre-se de que uma vida feliz e cheia de significados é o caminho natural para a saúde. O entusiasmo, e não a perfeita adesão ao regime alimentar, é a chave da eficácia do fator enzimático para você.


*Autor do livro A Dieta do Futuro.

A dádiva de cada instante


“Por que, afinal, Cézanne pintou a montanha Sainte-Victoire a cada instante? É porque a luz de cada instante é um presente.”

Althusser

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Brasil Orgânico

Brasil Orgânico revela histórias de pessoas que têm na produção orgânica uma forte convicção de vida. O roteiro percorre as regiões brasileiras, a diversidade de ecossistemas, paisagens e culturas. Da fruticultura no interior de São Paulo à pecuária no Pantanal, da agricultura familiar no norte de Minas Gerais e em Santa Catarina ao extrativismo na Floresta Amazônica. O associativismo, as feiras agroecológicas, o consumo consciente. Do campo à cidade, a produção de alimentos e a relação do homem com a terra.







Aprendendo um pouco sobre o chá japonês (1ª parte)

Aprendendo um pouco sobre o chá japonês (1ª parte)



O
 mesmo arbusto, Camelia sinensis, é fonte de diferentes espécies de chá no Japão.

As folhas mais jovens e tenras, colhidas na primavera, são usadas para fazer o Chá Verde ou Ryoku-cha.

Matcha é elaborado com os gravetos das folhas mais jovens. Esta é a bebida usada na Cerimônia do Chá.

Bancha é produzido a partir das partes mais velhas do arbusto, após a primeira poda. Usam-se as folhas podadas do primeiro ano para fazer o chá chamado Ichi-nen Bancha (Bancha do primeiro ano). Com as folhas podadas do segundo ano faz-se o Ni-nen Bancha (Bancha do segundo ano). Já o San-nen Bancha (Bancha do terceiro ano), por conter os gravetos do arbusto mas não as folhas, é também conhecido como Kukicha, isto é, chá de gravetos.

Kukicha (Kuki é o termo japonês para “graveto”). Quando George Ohsawa introduziu este chá na Europa, batizou-o de “chá de três anos”. No Japão, o Kukicha é considerado o chá mais desprezível, embora seja, paradoxalmente, o mais saudável.

Bō-Cha ( quer dizer “bastão”) é elaborado com a haste do arbusto.

A ordem decrescente do teor de cafeína presente nesses chás é a seguinte: Chá Verde, Bancha, Kukicha. O Bō-Cha não contém cafeína.

De volta ao futuro: Nas asas do decrescimento

De volta ao futuro
Nas asas do decrescimento




P
ersistir no caminho civilizatório em que nos encontramos é, reconhecidamente, uma estupidez. Um caminho que admite a contaminação da água, a contaminação dos solos e o desequilíbrio climático é digno, no mínimo, de uma profunda reflexão e reavaliação individual e coletiva de nossas ações. Tendo, embora, a possibilidade de viver num paraíso, esforçamo-nos, cansamo-nos, trabalhamos, envelhecemos precocemente para, surpreendentemente, aumentar a destruição e a rapinagem do planeta que nos acolhe.

Para onde rumamos como sociedade?

Queremos todos viver como um europeu? Lá onde não há mais nenhuma mata natural e onde os parques são silenciosos, pois quase não há mais vida natural nem cantos de pássaros? Lá onde a sociedade está mais industrializada e não há mais água boa para beber?

Queremos viver como um habitante do Japão, país com alta tecnologia mas cujas crianças se sentem tão pressionadas e infelizes a ponto de cometerem suicídio em grande número?

Queremos viver com um estadunidense, que para manter seu padrão consumista submete nações e povos a sangrentas guerras?

Uma industrialização maior da sociedade brasileira não nos deixará mais felizes. As nações mais industrializadas do mundo não são as que mais sentem alegria, não são as que mais se divertem, não são as que mais cultivam o amor. Bem ao contrário.

Por tudo isso, a correção de rota é imprescindível. É preciso projetar um futuro no qual o Brasil inteiro volte a ser um paraíso. Basta, para tanto, deixar a Natureza brotar espontaneamente. É necessário voltar aos projetos artesanais, caseiros, de escala familiar, os mais locais possíveis, geradores de trabalho e renda, dinamizadores da economia local, respeitadores da Natureza e, por isso mesmo, infinitamente mais prazerosos. Aproveitemos a memória de nossos avós quanto aos métodos tradicionais de condução da água, elaboração de sabão, processos de plantio de sementes crioulas, conservação de alimentos, receitas com fermentação natural. Lancemos mão de processos que nos libertem da indústria alimentícia, a qual não respeita sequer a lei de rotulagem, mentindo, portanto, quanto ao real conteúdo de sues produtos.

Espelhemo-nos nas populações tradicionais autóctones, que, não obstante tudo o que sofrem, não se recusam a compartilhar seus preciosos conhecimentos com o intuito de preservar este paraíso, pois entendem que somos todos irmãos.

Vibremos na frequência de diminuir o tamanho das cidades e espalhemo-nos pelo interior, não para desfigurá-lo, mas sim para criar sistemas agroflorestais e permaculturais, que são o estado genuíno desta terra chamada Brasil.

Desconcentremos, redistribuamos, dividamos, decresçamos, a fim de que haja o necessário para todos.

                        

A sabedoria do caracol

A sabedoria do caracol




O
 caracol nos ensina não somente a necessária lentidão, mas também outra lição ainda mais necessária. Como nos explica Ivan Illich:

 O caracol constrói a delicada arquitetura de sua concha acrescentando, uma após outra, as espiras cada vez maiores, e depois cessa bruscamente, começando a encaracolar-se em voltas decrescentes. Porque uma única espira ainda maior daria à concha uma dimensão 16 vezes maior. Em vez de contribuir para o bem-estar do animal, ela o sobrecarregaria. Assim, todo aumento de sua produtividade serviria apenas para remediar as dificuldades criadas por esse aumento da concha além dos limites fixados por sua finalidade. Passado o ponto- limite do aumento das espiras, os problemas do supercrescimento multiplicam-se em progressão geométrica, enquanto a capacidade biológica do caracol consegue apenas, na melhor das hipóteses, seguir uma progressão aritmética.

Esse divórcio do caracol em relação à razão geométrica, que ele havia desposado por um tempo, mostra-nos a via para pensar uma sociedade de “decrescimento”, se possível serena e convivial.

Doença e Literatura

Doença e Literatura
Virgina Woolf






C

onsidere quão comum a doença é, quão tremenda a mudança espiritual que traz, quão espantosas – quando as luzes da saúde se apagam – as regiões por descobrir que são então reveladas, que extensões desoladas e desertos da alma uma ligeira gripe deixa à vista, que precipícios e relvados pontilhados de flores brilhantes uma pequena subida de temperatura descortina, que antigos e rijos carvalhos são desenraizados em nós pela ação da doença, como nos afundamos no poço da morte e sentimos as águas da aniquilação fecharem-se sobre nossas cabeças e acordamos julgando estar na presença de anjos e harpistas quando arrancamos um dente, e voltamos à superfície na cadeira do dentista e confundimos seu “bocheche… bocheche…” com as saudações de uma divindade debruçada no chão do céu para nos dar as boas-vindas. – Quando pensamos nisso, como tantas vezes somos forçados a pensar, torna-se realmente estranho que a doença não tenha arranjado um lugar, juntamente com o amor, a guerra e o ciúme, entre os temas primordiais da literatura.